sábado, 24 de abril de 2021

DIA DO ANHANGÁ NO VALE DO ANHANGABAÚ

 Vamos todos celebrar o dia do Anhangá no Vale do Anhangabaú no dia 17 de Julho, dia do protetor das matas (saiba mais sobre o evento no FACEBOOK)

O Evento

O vale do rio Anhangabaú era sagrado, os habitantes de Piratininga faziam cultos e festas para deixar o deus mais feliz e menos vingativo. Hoje nós não só afogamos o rio do Anhangá, como também nos esquecemos do espírito mor de nossa cidade.

Desprezarmos nossas tradições tupiniquins dessa forma é imperdoável!

O Anhangá é comumente retratado como um veado branco, de tamanho atroz, com olhos vermelhos da cor de fogo. Ele é o protetor da natureza, persegue todos aqueles que caçam de forma indiscriminada e desrespeitam às leis das matas, a punição para essas violações é severa.

Este evento tem o propósito de resgatar as tradições ancestrais brasileiras de antes da chegada dos colonizadores, tem como objetivo o exercício de cidadania e preservação cultural, não tem teor político e nem está aliado a qualquer partido político - visamos somente a celebração da cultura ancestral brasileira.

Vista-se de branco, use chifres, beba cauim e vamos todos celebrar esse espírito protetor - quem sabe ele nos ajude a salvar a Mata Atlântica, o Cerrado, a Caatinga e até mesmo a floresta Amazônica.

O ponto de encontro será debaixo do viaduto do Chá, as 09:00 da manhã.

Obs. Mesmo sendo um evento ao ar livre, use máscara e evite aglomerações, os organizadores do evento esperam que até Julho já tenhamos avançado com as vacinações e a pandemia tenha sido devidamente controlada - contamos com o bom senso dos participantes.

Esse evento poderá ser adiado ou cancelado caso tenhamos restrições de festas populares em função do controle da pandemia.

Histórico

Celebrações ao deus Anhangá, no Vale do Anhangabaú 

Culturas antigas dos colonizados foram obliteradas pelos colonizadores, mas não foram totalmente esquecidas, é muito comum ver num provo que decide se reinventar e se re-amar, acordar suas crenças e até mesmo o seu idioma, como aconteceu com a língua hebraica, que após ter sido usada por mais de 1700 anos, essencialmente como veículo de expressão literária escrita e de orações,  foi revitalizada e integrada de forma viva e em uso com o restabelecimento do Estado judeu.
Em celebração a nossa cultura original brasileira, caracterização antropomórfica do Deus Anhangá na forma da bela jovem albina de olhos de fogo.

Tendemos a gostar do Halloween e da cultura americana, mas nós temos nossas próprias bruxas para cultuar, por exemplo o Saci…há quem defenda, "o halloween é uma festa antiga, é comemorada há mais de 2.500 anos e surgiu entre os celtas, que acreditavam que no último dia do verão (do hemisfério norte), 31 de outubro, os espíritos dos mortos saiam dos cemitérios para tomar os corpos dos vivos". O costume teria sido levado pelos imigrantes irlandeses para os EUA e incorporado ao All Hallows Even (véspera do Dia de Todos os Santos), dando origem ao Halloween.

São Paulo é a maior e mais prospera capital da America do Sul nos dias de hoje, assim como São Paulo de Piratininga foi centro da Américas antigas, com trilhas que levavam a toda parte do continente, verdadeiras auto estradas para o caminhante que ao ira além do Pico do Jaraguá, os protetores do vale, podiam chegar às lendárias terras do eldorado do Perú, como a mítica trilha do Peabirú.
Tibiriçá e João Ramalho discutem o futuro da Vila de São Paulo de Piratininga sob a magia das estrelas com a montanha sagrada do Inhapuambuçu ao fundo c.1556 - Com a chegada das Ordens Beneditinas, Carmelitas e Franciscanas as tradições ancestrais dos Tupiniquim desaparecem - a  remoção da icônica pedra do Inhapumabuçu representa o esforço de apagar a religião antiga da memória para dr inicio às novas.

No lugar onde hoje temos o Páteo do Collégio, próximo ao povoamento de Tibiriçá,  uma montanha sagrada que dava nome a aldeia, Inhapuambuçu (do Tupi-Antigo i(nh)apu'ãm-busú o grande cume ou y(nh)apu'ãm-busú o grande ponto do rio) mas com a chegada das Ordens Beneditinas, Carmelitas e Franciscanas as tradições ancestrais dos Tupiniquim desapareceram - a  remoção da icônica pedra do Inhapumabuçu representa o esforço de apagar a religião antiga da memória para dr inicio às novas.

No delta de dois importantes rios, o Anhangabaú e o Tamanduateí, temos o que hoje chamamos de triângulo histórico, mas que época era conhecido como o triângulo sagrado. Os nomes em Tupi-Antigo de lugares nessa localidade mostram um pouco de como a cidade era naquele tempo - O próprio nome da cidade, Piratininga que em Tupi significa "peixe seco", revela que os rios eram vivos e tinham muitos peixes, muitos deles morriam nos alagadiços do Carmo (onde é hoje o largo Dom Pedro) secavam ao sol e eram devorados pelas já famosas formigas do Brasil, que por sua vez atraia os belos tamanduás bandeira, daí o nome Tamanduateí ( do Tupi-Antigo tamanduá te y - rio do Tamanduá).

O outro rio ficava num vale que era alimentado pelo córrego do Itororó, que descia da maravilhosa floresta do Ka'a Guatá (hoje conhecida como Avenida Paulista), esse rio que descia por onde é hoje a Avenida 23 de Maio, desembocava no córrego do Anhangabaú, que também tinha uma linda vegetação protegida pelo Anhangá, o deus Tupi das Caças e da natureza.
Tupiniquins de Piratininga observam o lindo e poderosos Deus Anhangá

O Anhangá é comumente retratado como um veado branco, de tamanho atroz, com olhos vermelhos da cor de fogo. Ele é o protetor da natureza e persegue todos aqueles que caçam de forma indiscriminada, desrespeitam a natureza e pune quem caça filhotes ou matrizes que estão nutrindo suas crias e poluem suas águas.


Essa seria a vista da Praça do Mosteiro de São Bento se a montanha sagrada do Inhapuambuçu ainda existisse. Historiadores discutem a hipótese de que os Franciscanos, Carmelitas e Jesuítas decidiram aterrar esse importante marco religioso da aldeia de Tibiriçá no Triângulo de Piratininga para apagar todo e qualquer vestígio da religião ancestral indígena.

De outubro em diante começa a temporada das chuvas em SP e o D’us Anhangá certamente virá vingar-se daqueles que esconderam seu riu com concreto e asfalto, alagando nossas ruas, derrubando nossas árvores nos carros e casas. Se adotássemos a cultura #TUPIPOP , teríamos comemorações em celebração ao ANHANGÁ no dia do meio ambiente, talvez com uma parada no vale do Anhangabaú.

Xe Anhangá [gué/îu]!
Aîkugûabeté kó temi'u
Aîkugûabeté xe/oré remi'u

FAÇO AQUI UMA CONVOCAÇÃO A TODOS!!

Venham todos, vamos celebrar o dia do Anhangá no DIA 17 DE JULHO, DIA DO PROTETOR DA MATA.

Vamos ao Vale do Anhangabaú em procissão, beber muito Cauim, para acordar e celebrar aquele deus que adormeceu debaixo do asfalto, literalmente coberto pela cultura dos outros, dos colonizadores portugueses.

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TEXTO COMPLEMENTAR

O Curupira, também conhecido como Caipora, Caiçara, Caapora, Anhanga ou Pai-do-mato, todos esses nomes identificam uma entidade da mitologia tupi-guarani, um protetor das matas e dos animais silvestres.é legalmente reconhecido como protetor das nossas matas

Foi através do projeto de lei 558 de 1968, apresentado pela deputada Dulce Salles Cunha Braga, que se propôs o Curupira como símbolo estadual de guardião e protetor das florestas e dos animais que nela vivem. O projeto de lei determinava ainda que o símbolo do Curupira seria difundido nas escolas de graus primário e médio e que a Secretaria da Agricultura e da Educação deveriam tomar as providências no sentido de difundir o Curupira como protetor da flora e fauna. Em 9 de julho de 1970 Dulce reapresentou o projeto de lei, agora com número 40.
Estátua do Curupira no Horto Florestal de São Paulo

Em agosto daquele ano, o deputado Solon Borges dos Reis recomendou que o projeto fosse aprovado pela casa. Entre as justificativas, escreveu que “diariamente nos jornais temos notícias de atos criminosos no sentido de devastar a nossa flora e a fauna, apesar da proteção que o estado oferece. É importante, a fim de pôr paradeiro a esses atos criminosos, educar as nossas crianças, mostrando-lhes os aspectos positivos da preservação forçosa da natureza e da fauna, tão necessárias à vida do homem”.

Em primeiro de setembro de 1970, a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo aprovou o projeto de lei, que foi promulgada em 11 de setembro de 1970 pelo Governador Roberto Costa de Abreu Sodré instituiu o Curupira com o Símbolo Estadual de Guardião e Protetor das Florestas e dos animais.

A primeira imagem do Curupira no Horto 

Em 21 de setembro de 1970, foi inaugurado pelo governador o monumento ao Curupira no Horto Florestal de São Paulo, atualmente designado Parque Estadual Alberto Löfgren. A estatueta foi doada pelo prefeito de Ribeirão Preto, Antônio Duarte Nogueira, feita a partir de uma estátua do Curupira existente no bosque Fábio Barreto, naquele município.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Lenda da Sununga

 

A índia Potira se encantou com a serpente da gruta da Sununga

Lendas da Sununga e da Gruta que Chora 

A Praia da Sununga e também a gruta chora e despeja suas gotas de água sobre o visitante que grita sempre mexeu com o imaginário de seus visitantes. As lendas que cercam esta gruta tem em comum a figura de uma enorme serpente que emite um estridente barulho - Cyninga em Tupi-Gurani antigo, modificado para Sununga nos dias de hoje significa forte e estridente barulho, talvez o barulho emitido pelo animal mítico. 
A primeira lenda da Sununga foi contada pelo historiador Francisco Martins dos Santos em artigo no jornal santista A Tribuna, em 7 de janeiro de 1951, página 17 (2º caderno), com ortografia atualizada nesta transcrição: 

A gruta que chora 

A casa do Zé do Barro estava cheia de luzes naquela noite morna de agosto. Sanfonas e violas gemiam lá dentro e parecia que toda a gente do Itaguá, do Tenório, da Praia Grande, das Toninhas e dali, da Enseada, comparecera aos fandangos daquele ano. 

Os cantadores do Divino já se haviam ido para os lados de Santa Rita, mas o redeiro emendara Folia aproveitando o pretexto. 

- Disgraça pôca é bobage... o pêxe tá dando... sêo Macié tá comprando... bamo bebê... bâmo dançá minha gente!... 

Era um filósofo o Zé do Barro, e aquele rancho grande, logo atrás da praia, entre aglomerados de abricós e cajueiros, com suas varandas largas em torno e suas janelas sempre abertas, claro, alegre, cheio de flores e de passarinhos, era bem o seu retrato de caiçara risonho e amigo de todo mundo. 

Um cheiro bom de ubatubana corria pela casa e saía lá fora, entre o estrupido da arrelia e o estrepitar das canecas. 

Zé do Barro não parava, e ria, e falava com um, com outro, animava os músicos, atirava piadas aos amigos, brincava com as damas e não se esquecia de uma talagada de vez em quando. Era um pai da vida, que se alegrava com as alegrias alheias. Seus olhos deram no Antonio Laurindo de Santa Rita: 

- Antonio Laurindo! O dotô que vai pra Sununga tá hí... Bâmo pra ele uma dança de S. Gonçalo que ele qué bê! Cadê o Parú? Esse capeta que puxe a gente!... 

O doutor Avelino, visitante de São Paulo, lá estava de fato, na varanda da frente, debruçado na janela, a atiçar o Zé do Barro com olhares de lembrança, no sentido da dança que não conhecia. 

Dali a instantes, Antonio Laurindo e o Parú, tocados pelo seo Renê, um francês-caiçara do Taguá, apareceram no meio da sala, serenando a arrelia e arrumando os pares e as coisas para a gonçalina. A imagem do santo logo surgiu, trazida lá do fundo do rancho, enfarruscada, como se viesse do fumeiro, e pouco depois aparecia num dos cantos da sala, sobre um soco improvisado, para presidir à função. 

A dança começou com a cantoria de sempre e os pares em desfile e cumprimentos rasgados, de busto inteiro, diante do santo: 

Indios Tupis a bordo de um Ubá - tipo de canoa feita de um tronco de árvore.

São Gonçalo d'Amarante... 
São Gonçalo d'Amarante... 
Casamenteiro das velhas 
Casamenteiro das velhas... âããhhh 

Por que não casais as moças... 
por que não casais as miças... 
Que mal bos fizeram elas 
Que mal bos fizeram elas... ãããhhh 

Oh meu São Gonçalo 
Meu São Gonçalinho 
Que come o meu pão... 
Que bebe o meu binho... 

O doutor Avelino se divertia com o canto fanhoso da caiçarada foliona, com os remelexos e bamboleios dos pares, o zangarreio das violas e, por fim, a agitação das umbigadas, na fase aguda da dança tradicional. 

Uma voz chamava o visitante: 

- Sô dotô... Sô dotô... Pra que hora quereis a canoa aminhâ? 

Doutor Avelino voltou-se; era o remeiro do Maciel, o dono das canoas "de frete". 

- Logo cedo, às sete, seo... 

- Puruba sim sinhô, pra bos sirbi! 

- Pois é, seo Puruba, às sete está bom... mas diga ao seo Maciel que mande junto aquele camarada que conhece a história da gruta que nós vamos ver, entendeu? 

- Sim sinhô, sô dotô... aquelezinho que conhece é meu mano, sabeis? Ele é que é o Puruba de berdade... - e o praiano desapareceu em seguida, nas sombras do pequeno bosque. 



Zé do Barro, estabanado, a oitenta graus de pressão da ubatubana, chegava naquele instante junto a janela da varanda. 

- O sinhô gostô do S. Gonçalo, dotô? 

- Se gostei, meu amigo; seu pudesse eu viraria caiçara como vocês... A vida é muito mais bonita onde e como vocês a vivem... 

Doutor Avelino falava como quem estivesse saturado do grande meio e seus olhos tinham lampejos de inveja cheia de esperança. Zé do Barro ficou ainda mais amolecido com as palavras do doutor, e enquanto este se retirava para descansar, ele ficava ali mesmo, debruçado na janela, os olhos muito abertos para a noite, para o mar, para o céu, vendo tudo irisado pela inspiração alcoólica, ouvindo vozes aveludadas sobre as águas e pelo espaço sideral. 

Pela note a dentro foi indo o fandango bulhento, do praiano feliz que tinham um rancho, uma rede de pescaria, uma janela para olhar a natureza trescalante, e um coração para sonhar... 

No dia seguinte, bem cedo, lá estava o doutor Avelino à frente do seu pequeno bando, fazendo hora na praia, olhando o mar manso, espelhado, enrubescido do primeiro sol, a brincar com os pés nas maretas, a revolver as conchas na areia, a enamorar-se daqueles horizontes, daquelas serras virgens e daqueles aromas matinais que um ligeiro pitiú de certas luas não chegava a anular, pensando outra vez, que a verdadeira vida estava ali, entre aquela gente e naqueles lindos lugares. 

Havia no dorso da praia um exército de canoas de todos os tamanhos, as proas levantadas sobre rolos, apontando o infinito. 

Momentos depois, a guaperubú do Manciel rompia a maré, para o largo da Enseada do Flamengo, a rumo do Saco da Ribeira que se pintava ao longe, ao fundo daquela concha de terra verde, ao grasnar dos carapirás em vôo baixo ao saltarelhar vagabundo das tainhas. 

Do Saco da Ribeira para a Sununga foi um arranco de quinze minutos a pé, pela vereda de arenito toda bordada de aleluias e, por fim, a visão dadivosa e mansa da baía da Fortaleza, com seu recorte de cromo e uma rampa de areia deslumbrante de brancura, onde os pés se enterravam - num atrito de alpaca de seda, a famosa Sununga. 

Ao canto, bem ao fundo daquele imenso lençol de areia solta inclinar-se para as ondas bulhentas, lá estava a gruta encantada, que a voz do tempo apelidara "A Gruta que chora". 

A imaginação do doutor Avelino desatou-se em arroubos, diante da pequena caverna lendária, que o trouxera de longe para o transporte emocional do misterioso e do desconhecido. Ansiava por fazê-la chorar, por ver aquelas lágrimas de prata que a tradição dizia verterem do alto da lapa ao soar de gritos humanos. Ele avançara sozinho, precipitando os passos, para ser o primeiro a colher a emoção do fato estranho, e, já da ponta da pedras laterais, que avançavam como braços de esfinge para dentro do mar, levantou a voz em palavra a esmo: 

- Chora! Ei! Vamos! Chora! 

Quando os outros chegavam, começava o espetáculo da natureza; caíam na areia grossa da boca da caverna, em toda a sua largura, as primeiras gotas cristalinas, como em princípio de um pranto. Doutor Avelino continuou a gritar, e as lágrimas foram amiudando e engrossando, caindo em abundância de cada ponta de folha, de cada epífita suspensa, de cada ruga de pedra da fronteira rasgada em arco. 

Houve em seguida um silêncio de meditação; sentaram-se todos à entrada daquela boca de pedra aberta para o oceano, e entre eles e o azul escandaloso do céu ensolarado, passava a cortina de lágrimas, em cambiâncias de cristal de boêmia. Confirmava-se a tradição, para encanto do espírito exaltado do doutor da cidade, e o silêncio dos visitantes era o retrato da sua imaginação traumatizada ao contato do mistério. 

Foi o Puruba, em sua inconsciência de simples, quem interrompeu o recolhimento dos visitantes: 

- Tá vendo, sô dotô? Bunito, não? Mais a história é muito mais bunita... 

E foi assim, sob o assentimento do doutor Avelino, acordado ao som metálico daquela voz, que o Puruba, ajudado às vezes pelo irmão, o remeiro do Maciel, desenrolou de novo a história velha que já contara a tanta gente. 

*** 
Naquele tempo a Enseada dos Miramomis era quase virgem do homem branco; quase, porque os franceses chegavam por ali de vez em quando - os coaraciabas - amigos que eram dos tupinambás. Iperoig era então o reino exclusivo dos homens de bronze da taba de Aimberê e Coaquira, senhores de Ubatuba, uma esmeralda grande a encastoar-se no anel das águas da enseada. 

Além, a dez quilômetros de distância, na várzea da Sununga, ficavam as ocas de Coaquira, ao alcance regular das ubás de Iperoig e do som costumeiro dos trocanos da sede, repetido nas ocas intermediárias. 

Potira, a virgem tamoia, filha de Coaquira, estava noiva de Jagoanháro, jovem guerreiro, e o casamento deles seria ao fim de "duas luas". 

Havia a pairar sobre aquele povo dois motivos recentes de tristeza e inquietude - a caçada intermitente de suas mulheres, realizada pelos portugueses de Bertioga, e um castigo de Tupã, o aparecimento da "cobra grande", um monstro de olhos verdes que chispavam fogo, no costão da Sununga, perto das ocas de Coaquira, vinda da Guãxima, ao que diziam, levantando ondas na passagem. 

Afirmavam alguns índios pescadores que o rabo do monstro ferira sete vezes a terra, na ponta do pequeno promontório, e sete fontes haviam brotado do chão ferido. Seguira a serpente enorme para diante, rabeando sobre as águas e chegara às areias da proximidade do sítio de Pindobussú. Ali chegando, a cauda imensa do monstro ferira a rocha, abrindo nela uma gruta profunda, onde ele se aninhara. Naquele instante a terra subira, o mar se refrangera e avançara de nvo, invadindo a gruta numa explosão de raiva, recuando outra vez a um rugido espantoso da "cobra grande". 

Tão grande fora o duplo ronco e tão despropositado naqueles lugares que, ao longe, a indiada de Coaquira gritara assustada, correndo para a praia, a ver o que acontecera 

- Pará cyninga! (cyninga – ruído forte) 

Viram todos então, sem compreender, o fenômeno da costa refrangida, a praia em rampa, o mar embravecido onde fora sempre remançoso e calmo, como o próprio lugar. 

Apenas dois ou três tamoios que pescavam àquela hora tinham visto a "cobra grande" e mostravam aos outros a gruta que não existia anteriormente e onde ela se internara. 

Os pajés da tribo, a sacudir seus maracás sagrados, pressagiavam desgraças para breve e para quem se aproximasse do bicho. 

E dali por diante, nas luas cheias, uma cunhatã tamoia desaparecia das ocas, sem que ninguém visse como desaparecera, vendo todos apenas, pela madrugada, um rastro enorme e grosso que se prolongava pela areia, na direção da gruta. 

Pensou Coaquira, embora ferido em seu orgulho, em abandonar aquelas terras onde nascera e onde fora sempre feliz, mudando-se para a Maranduba, mais além, a salvo do monstro que acovardava os seus guerreiros e que ninguém queria combater. 

Naqueles dias, caçadores portugueses, pelo menos ao que diziam, de novo aprisionaram diversas cunhatãs tamoias de Malembipe e os trocanos soavam, falando a linguagem da guerra. Aimbirê e Pindobussú reuniam as tribos para um movimento geral dos tupinambás de toda a costa vicentina contra os peros, os portugueses de Bertioga, fazendo esquecer em parte os fatos da "cobra grande". 

Foi naquela altura que dois abarés dos peros chegaram a Iperoig para apaziguá-los, afirmando-lhes que os portugueses não eram culpados, que eram os franceses que roubavam as suas mulheres, para lhes dizer depois que foram os portugueses e atirar contra eles a vingança dos tupinambás. Vinham os pai-abunas para lhes propor uma paz de fato ou mais do que isso, uma aliança, afirmando-lhes que assim determinara o seu Deus, que era mais forte do que Tupã. 

Um movimento de ódio e temor pincelado de curiosidade arrastara índios e índias para junto dos dois padres, ameaçando-os de morte pelas intrigas dos pajés. 

Chegara então a lua cheia e os pavores de Coaquira se renovaram. Uma cunhatã decerto desapareceria para sempre do seu povo, sem reação e sem defesa, e isso o desesperava. Estava o chefe a parlamentar com Pindobussú sobre as coisas da guerra e a presença dos abarés, quando um mensageiro, cheio de terror, veio lhe dizer que Potira, a sua filha, fora carregada pela "cobra grande". 

À notícia cruel, Coaquira e Jagoanháro precipitaram-se, loucos de raiva e de dor, para as ocas distantes. 

Ia muito avançada a madrugada quando eles chegaram, e Jagoanháro pôde ver apenas, na entrada da gruta do monstro misterioso, um rastro de sangue sobre a areia branca, que uma réstia de luar ainda mais alvejava.
Desesperado, o guerreiro tupinambá investiu pela caverna, aos gritos de Coaquira e dos outros companheiros. Um ronco enorme soou em seguida, na garganta escura da gruta, seguido de um grito lancinante, e depois o silêncio, um silêncio de morte assombrado pelo luar. 

Os homens de Coaquira desertaram ouvindo o ronco, e o morubixaba amarrado ao lugar, como um daqueles guanandis da várzea, pela primeira vez teve vontade de chorar, ao sentir-se sozinho, frágil como criança, acovardado como uma mulher, incapaz de levar a cabo o socorro à filha que queria tanto e a Jagoanháro, que em breve devia ser seu filho e futuro chefe em seu lugar, destroçado em seu orgulho de rei que já não poderia reinar. 

Pindobussú ameaçou céus e terras quando soube da morte de Jagoanháro, devorado pela "cobra grande", e jurava enviar uma legião de ubás para dar combate ao monstro. Um pajé veio dizer-lhe, então, que tudo seria inútil, e que se aqueles padres eram mesmo santos, e se o seu Deus era mais forte do que Tupã, como dizia, eles que dessem uma prova disso naquela contingência, libertando o povo tupinambá da estranha serpente surgida nas terras de Coaquira. Se assim acontecesse é que seriam mesmo santos e seria o seu Deus maior do que Tupã, porque, de outra forma, acender-se-iam desde logo as fogueiras que deviam assá-los para o banquete. 

Nóbrega e Anchieta, pois que eram eles os abarés dos portugueses, aceitaram o desafio dos pajés de Pindobussú e se foram, em expedição, ao lado dos morubixabas tupinambás e uma legião dos seus guerreiros, enquanto os pajés ficavam em sua poracéia bárbara, prelibando o fracasso dos peros. 

Rompia a manhã no lado dos céus de Picinguaba, quando a tribo inteira de Coaquira, com seu chefe e os tuchauas de Iperoig, tendo os dois padres à frente, se apresentaram diante da gruta da "cobra grande". 
Padre de Anchieta para em frente a gruta e branda: - Apresenta-te em nome de Deus!

Manoel da Nóbrega ia avançar quando Anchieta colocou-se adiante dele e avançou rapidamente para a caverna, a mão alçada no ar, bradando: 

- Apresenta-te em nome de Deus! Em nome de Deus! 

Um rugido pavoroso irrompeu do fundo da garganta escura e chispas de fogo fuzilaram de dois olhos verdes. A pedra tremeu a uma convulsão do monstro, e, subitamente, uma cabeça enorme surgiu à luz da manhã, avançando para o pequeno e frágil pai-abuna. 

A indiada, transida de medo, comprimia-se lá fora, amparando-se mutuamente para não fugir, assombrada ante a coragem daquele homem magro, pálido e de roupagem negra, que num supremo desprezo à vida, ainda protegia o companheiro. 

Outro rugido imenso feriu o silêncio daquele instante supremo, e a cabeça do monstro projetou-se sobre o padre, mas, naquele momento, o abaré dos portugueses, enfrentando a sua fúria, suspendera no ar a cruz do seu Deus, que arrancara do peito, e, então, diante de toda aquela gente bárbara houve um estampido enorme, enquanto uma densa nuvem de fumaça, tresandando a enxofre, envolvia a cena. 

Ao dissipar-se o fumo, lá estava o padre imóvel, no mesmo lugar, como uma figura de pedra negra, a mão alçada no espaço e nela o crucifixo, mas a "cobra grande" desaparecera para sempre, deixando revolvida a areia e entulhada a garganta onde se escondia e onde para sempre ficariam Potira e Jagoanháro, unidos no noivado eterno da morte. 

- Anhanga! Anhanga! - bradavam os tamoios na beira da praia. 

- Potira! Potira!... - gritava Coaquira, diante da caverna, enquanto Pindobussu curvava a cabeça para o chão, em sinal de respeito, curtindo em silêncio a sua dor serena. 

E, naquele instante, viram todos que, aos gritos do morubixaba tupinambá, vertia a gruta lágrimas abundantes, chorando como um ser humano, como se caissem dos seus olhos, lá de cima, um chuveiro de lágrimas ardentes. 

*** 

O Puruba terminava a sua descrição: 

- Esse bicho, sô dotô, era o capeta... As sete fonte, onde ele bateu co rabo sete vêis, tão lá, mais prá riba, prá ponta dessa costera... Este má que era manso como o má de Santa Rita, ficô brabo e co essa sununga, esse ronco que vai longe e que ficô dando nome ao lugá. E essas lágrima, sô dotô, podeis crê, é da índia noiva, que o bicho incantô e que tá incarnada nesta gruta; é o choro da moça, quando ôve a vois de arguém, e pensa que é do noivo ou que é do pai, gritando disisperado pur não podê li sarvá... 



A segunda lenda da Serpente Sununga 



Graciosa jovem de tez suavemente morena, olhos cinza esverdeados, farta cabeleira negra e ondulada, porte esbelto e curvas caprichosamente delineadas, Marcelina, até então alegre, forte e viva, de repente pareceu aniquilar-se, alimentando-se mal, perdendo as cores, visivelmente tímida, quase sem ânimo para as tarefas costumeiras e, de modo sumamente estranho, muitas vezes permanecia acomodada até alto dia, necessitando que alguém fosse alerta-la para que deixasse o leito. 

Remédios já os havia tomado em grande quantidade, desde "vinho-composto" a chás de várias ervas, e até banhos de cozimento de folhas e flores já Lhe haviam sido ministrados, mas nada resolvia. Sinhá Anália confidenciava seus temores às amigas mais íntimas e estas procuravam afastar-lhe as preocupações: 

- Ah, não é nada... é da idade... quantos anos ela tem? Quinze? Então tá aí, é da idade! Mas isso não tranqüilizava a apreensiva mãe que, interpelando a filha, revelando seus temores e fazendo indagações, recebia sempre respostas como esta: 

- Que é isso, mãe? Estou boa, não sinto nada. A senhora está com medo só porque eu estou levantando um pouco mais tarde? Só porque ando com pouca fome? - e fingindo um sorriso - Se eu comesse muito aí a senhora ia achar ruim, é ou não é? 

Dias se passaram, tristes e apreensivos, até que certa madrugada, ao raiar do dia, Sinhá Anália, que passava noites inteiras quase em vigília, ouvindo soluços provindos do quarto da filha para lá se dirigiu, encontrando-a abraçada ao travesseiro, abafando o pranto e murmurando palavras desconexas que pareciam ser: 

- Não! Não vá... não quero... espere... 

A desolada mãe, atordoada com aquelas palavras sem sentido algum, não alertou a filha. Acomodou-se aos pés da cama e se pôs a rezar, pedindo a Deus que Lhe desvendasse o mistério que aniquilava a filha. 

De repente Marcelina começou a mover-se. Mui lentamente levou as mãos aos olhos como que procurando dissipar uma lágrima e depois, vendo a mãe ali postada, com voz entrecortada começou a falar: 

- Que é isso, mãe? A senhora está ai? Está chorando? Ah, me perdoe... Eu sei... Eu estou fazendo a senhora sofrer... Mas... Não chore... Não se desespere... Eu sei que a senhora quer saber tudo, não é? Então escute... Eu vou contar o que tá se passando comigo! A senhora sabe a estória daquele bicho, daquele dragão que mora na Toca da Sununga, não é? Sabe, sim, porque todo mundo sabe. Por que é que toda gente deixou de passar por lá? Porque basta alguém chegar lá perto para o mar ficar bravo, chegando a jogar as ondas até na boca da toca, arrastando tudo, seja lá o que for que estiver por perto! Pescador, esse então nem se fala, esse navega lá de longe, pra mais de duzentas braças da praia e ai dele se chegar mais pra perto! Somem ele, a canoa, os apetrechos, some tudo, como já tem acontecido, é ou não é? Todo mundo sabe disso, todo mundo fala, mas até hoje ninguém disse que viu o tal dragão. 

Isto é, ninguém disse, não, porque o "seu" Antero viu, viu e me contou. Ele me disse que numa noite tava chegando de viagem e como era muito tarde pra chegar na casa dele, na Praia das Sete Fontes, resolveu cortar caminho. Então foi andando por cima do morro, por trás daquela bruta pedra da toca. Mas aí, quando foi chegando perto, ouviu um rugido tão grande que se arrepiou todo! Quis correr mas não pôde, parecia que estava grudado no chão! Aí foi que ele viu o bicho que estava saindo da toca e andando pro lado dele! Era um bicho horroroso! De meio corpo pra cima era que nem aquele dragão que a gente vê nos quadros de São Jorge, onde o santo está fisgando ele com uma lança! O resto do corpo era que nem cobra, roliço, sem pernas, se arrastando no chão! Aí, a lua que tava clara, limpa, iluminando tudo, se escondeu por trás de uma nuvem deixando tudo escuro que nem breu! "Pronto, vou morrer!" - pensou ele. Fez o sinal da cruz, ajoelhou-se e começou a rezar o "Crendos Padre". O bicho parou e foi se encolhendo devagarinho, devagarinho, que nem cobra quando vai dar o bote, mas não fez isso, não. Ao contrário, fez a volta e foi sumindo no meio das árvores, pros lados da toca. Aí "seu" Antero me disse que pôde se desgarrar do chão e deu pra correr até chegar em casa, mais morto do que vivo! Lembra-se, mãe, daquele dia que o "seu" Antero me levou até a Maranduba pra assistir o casamento da Justina? Pois foi naquele dia, no caminho - conversa vai, conversa vem -,que ele me contou essa estória do dragão da Sununga. 
O Dragão da Sununga é o responsável por deixar o mar tão agitado

Mas não sei, mãe, não sei porque aquele homem me contou isso. Não sei... Desde aquele dia nunca mais me esqueci do tal dragão, me parecendo estar vendo ele em toda parte, grande, gosmento, se arrastando no chão... Pra mim me parecia que ele tava na bica onde a gente lava roupa... no caminho que vai pra venda do "seu" Gardino... no acero da roça... até no rancho de guardar as canoas, me parecia que ele tava lá! Mas não tava, não! Era bobagem, mãe... Mas sabe que eu não tinha medo? Sabe que eu até tinha vontade de ver o tal dragão? Tinha mesmo... Juro que tinha... Pois uma noite - não foi sonho - eu tava acordada, tava acordada e vi quando ele veio sem fazer barulho, sem abrir a porta e entrou devagarinho aqui no meu quarto. Era o dragão, igualzinho, do mesmo jeito como o "seu" Antero me contou. Ai eu quis gritar pra senhora me acudir, mas quem diz que eu podia falar? Quem diz que eu podia me mexer? Aí o bicho foi chegando, chegando e ficando pequeno, tão pequeno que coube ali naquele canto perto da janela. Não demorou ele foi se enrolando, foi ficando do jeito de um tipiti bem grande e daí a pouco, mãe, aquilo foi virando gente e ficou do jeito de um moço, mas um moço bonito que Deus me perdoe - perdi o medo. 

O moço ficou bastante tempo ali, de pé, me olhando com uns olhos azuis da cor do céu! E se riu pra mim... Aí eu me ri pra ele e ele veio vindo, veio vindo, chegou perto de mim, passou a mão nos meus cabelos... Depois sentou-se aqui na cama... Depois... Depois ficou comigo! Oi, mãe, ele foi embora só de manhãzinha, depois que o galo cantou três vezes... E eu fiquei com tanta pena... Tive até vontade de chorar... E chorei, não tenho vergonha de contar, chorei mesmo! Agora, mãe, não tenho vontade de trabalhar, nem de comer, nem de conversar, nem de nada. Minha vontade é de ficar aqui no quarto, de porta fechada esperando que a noite chegue e que o bicho venha e se vire no moço bonito, pra ficar comigo até de manhãzinha. Ainda há pouco, mãe, eu tava chorando. Tava chorando porque ele tava indo embora sem querer me ouvir. Eu tava pedindo pra ele ficar, mas ele nem ligou... Toda vez que vem aqui, vai embora antes do dia clarear. Não adianta pedir, não adianta chorar, ele não liga e vai embora. Então, é como já disse, eu fico aqui sozinha, pensando nele, até que volte outra vez pra ficar comigo... 

* * * 
Esta revelação Sinhá Anália ouviu-a no auge do desespero, quase arrastada às raias da loucura. Mas, que fazer? A quem apelar? Nada mais Lhe restava senão rezar e pedir a parentes e amigos que fizessem o mesmo, a fim de que um milagre a livrasse de tão iníqua provação. 



* * * 
Passava o tempo, quando certo dia bateu-lhe à porta um trôpego velhinho - talvez um monge, envolvido num manto andrajoso - que, com voz sumida e rouca pediu-lhe alguma coisa para comer, bastava um pedaço de pão com que pudesse mitigar a fome que lhe corroía as entranhas. Sinhá Anália, amargurada mãe que sofria tanto, ainda encontrou fibras sensíveis em seu coração para se compadecer do mísero viandante, faminto, maltrapilho e exausto. Fazendo-o entrar, agasalhou-o, deu-lhe de comer e depois de reanimá-lo, atendendo às suas indagações, relatou-lhe todo o infortúnio, toda a razão da tristeza que consternava aquela casa. 

O velhinho ouviu-a, imoto, impassível, como em prece, como que absorto em pensamentos distantes. Finda a narrativa, fez Sinhá Anália sentar-se junto dele e revelou-lhe que, de há muito, bem longe dali, em sua peregrinação, já ouvira falar do monstro satânico que atormentava a população daquele bairro. Justamente por isso é que ali. viera, por inspiração divina, a fim de libertá-la da opressão que lhe infringia o Espírito do Mal. 

Essa revelação correu célere pela redondeza, reunindo conside-rável multidão que, certo dia, sem temor, acompanhou o venerável ancião na caminhada que fez em direção á toca que abrigava o dragão da Sununga. 

Caminhavam todos trôpegos, arfando, escalando a encosta pedregosa até atingir o cimo do íngreme penedo que recobre a desmedida gruta. Ali chegando, o monge ergueu os braços num largo e lento gesto do sinal da cruz, e ao murmúrio de piedosa prece, espargiu por sobre a pedra a água que levara num pequenino púcaro. 

Naquele instante um trovão violento fez estremecer a terra, atordoando a multidão em prece! O mar, rugindo em doidas convulsões, projetou-se violento contra a impassibilidade das rochas, para retroceder, abrindo-se ao meio, bem em frente à toca, dando passagem ao monstro apocalítico que por ali avançou rugindo, sumindo ao longe, na profundeza das águas! 

* * * 

Nunca mais se teve notícia do dragão da Sununga. De Marcelina, sabemos que embora arredia, taciturna, ainda viveu por longo tempo, conservando traços da rapariga que fora "de tez suavemente morena e olhos cinza esverdeados, farta cabeleira negra e ondulada", e mantendo o "por-te esbelto e curvas caprichosamente delineadas"! 

Hoje, quem se postar no interior da lendária gruta, perceberá cair lá de cima, das ranhuras da pedra, uma seqüência de pequeninas gotas que se infiltram na areia branca e fina que alcatifa o chão. 

Dizem, alguns, que são remanescentes gotas da água benta espargida pelo monge, que ainda caem, a fim de que o dragão jamais possa voltar. 

Outros, porém, afirmam que são lágrimas de Marcelina, que lá voltou muitas vezes, na esperança de que o dragão, feito moço bonito, ainda voltasse, para ficar com ela a noite inteira, até os primeiros albores da manhã! 

sábado, 17 de outubro de 2020

O Calendário da Tartaruga de 364 dias - Astronomia Ancestral Tupi

 

Ilustração Tupi-Pop do Calendário na carapaça da tartaruga marinha por Kunumi Kûatiasara


Os Tupinambá, Tupiniquim e outras etnias das Américas tinham grande conhecimento de astronomia, a observação de corpos celestes associadas às estações do ano, bem como lendas cosmológicas, era expediente corrente entre esses povos, é possível que compartilhassem conhecimento e discordassem das teorias uns dos outros, o assunto era o mais comum entre os povos da America do Sul, dos Andes e de povos antigos do atual México, levados a cabo pelos rápidos viajantes das trilhas, dentre as quais a mais importante, a do Peabirú. 

Uma das teorias mais ouvidas entre nossas muitas etnias diz respeito ao fato de o ciclo anual de 364 dias estar gravado nas carapaças das tartaruga marinhas da família Cheloniidae, diz a lenda que Jerônimo de Albuquerque Maranhão, bravo guerreiro, responsável pela expulsão dos franceses, filho do nobre português Jerônimo de Albuquerque e da linda princesa indígena pernambucana Muyrã Ubi, filha do cacique Uirá Ubi, (Arco Verde, em português), da aldeia Tindara, batizada em língua portuguesa com o nome de Maria do Espírito Santo Arcoverde, ao chegar em Pé do Serrote fez erguer uma pequena fortaleza, com estacas de madeira para protegerem-se do terrível pirata francês Du Prat, no ano de 1614 de nosso Sr., na companhia dos Tremembé.


Como era profundo conhecedor do idioma Tupi, aproximou-se de uma jovem que brincava com uma tartaruga marinha e percebeu que ela constantemente repetia um verso: 

“kwara'sï - Irundyk po xe pó mosapyr - quatro mãos com minha mão e mais três = 28 (vinte e oito sois), Îasy - Mokõî pó mosapyr – duas mãos e mais três = 13 (treze luas)”;

13 luas e 28 dias, o que seria isso?

Ao perguntar ao pai da garota, esse responde que em todas as carapaças de tartaruga esses números equivalem aos 364 dias que compõem o ano indígena.

Todos os povos indígenas conheciam a sabedoria da tartaruga e seguiram um calendário de 13 meses; afinal, existem 13 ciclos lunares num ano e 27 a 29 dias por ciclo.

Ao comparar com o calendário gregoriano, instituído em 1582, fez parecer que o homem branco tivesse subtraído um mês para cortar a conexão entre as pessoas com o sol e a lua."

O velho índio perguntou então a Jerônimo:

O ano de 364 dias está representado na carapaça da tartaruga marinha

O-î-kuab-ype nde r-a'yra îurukaûá asé r-ekomonhangaba? 

Teu filho desconhece os mandamentos da tartaruga feito a nós?

Envergonhado, ele mente ao velho índio: 

- Pá. O-î-kuab.

Sim, ele os conhece.

Ta nde ma'enduar Tupã asé r-ekomonhangaba r-esé.

Que ele se lembre dos mandamentos da tartaruga feito a nós.

Jerônimo, encantado com a descoberta do calendário no casco das tartarugas, não só fez seus filhos e netos conhecerem o calendário da tartaruga, como também resolveu dar nome ao lugar de ‘Jericoacoara’, do Tupi-Antigo îurukaûá tartaruga-marinha / kûara – toca = Toca das tartarugas.

Os índios Xerente, segundo Levi-Strauss (1964), contam os meses do ano através de lunações, ou seja,através das transições da Lua entre nova, crescente, cheia e minguante, além disto, os Xerentes consideram como o inicio de um ano novo, quando ocorre o aparecimento das Plêiades e o Sol distancia-se da constelação ocidental de Touro, ocorrendo no mês de junho se analisado no calendário ocidental. Um outro importante fator causado pelas Plêiades, diz respeito ao aviso de possíveis ventos, porém, isto ocorre, apenas quando são avistadas no amanhecer. A observação em relação ao nascer da Sururu (Plêiades), para os Xerentes, pode ocorrer de duas formas distintas, às quais eles nomeiam como “nascer helíaco” e “nascer cósmico”, no primeiro o nascer dessa constelação se dá antes do nascer do Sol, no segundo, nascer cósmico, elas nascem em conjunto ao nascer do Sol, dentro deste período de diferença na forma de nascer das Plêiades, contam-se treze luas, ou seja, por treze vezes se cumpriu as quatro fazes da Lua.

Segundo D’Abbevile (1614), para os índios Tupinambá, as Plêiades eram muito comuns, agindo como base de informação meteorológica e cultural, eles a denominavam Seichu, na região da ilha do Maranhão, onde ocorreram as pesquisas empíricas de DAbbevile. As Plêiades aparecem em meados do mês de janeiro, quando os Tupinambá começavam a esperar o período das chuvas. Os Tupinambá da costa nordestina, segundo LeviStrauss (1964), associavam as Plêiades a uma constelação, que denominavam Seichujura, ou seja, colmeia de abelha, o aparecimento desta constelação, para eles, também funcionava como indicadora das chuvas.

As fases da lua

A Lua, satélite natural da terra, a partir de suas fases, serve como referência ao cotidiano dos índios, sendo utilizada como orientação para seu calendário, assim como influencia na contagem das horas e na orientação geográfica. Outra influência muito importante da Lua no cotidiano, diz respeito à agricultura, à caça e à pesca dos povos indígenas, sabendo qual o melhor período para colher frutos, plantar, pescar certas espécies de peixes e quando ocorre a época mais farta para a caça, assim como para o corte da madeira.

Esta influência, segundo D’Abbeville (1614), é também responsável pela vida marinha, sendo conhecida por quase todos os membros da cultura Tubinambá, onde as fases da Lua modificam o ritmo das marés. O conhecimento das fases lunares foi a herança do conhecimento, deixada pelos antepassados indígenas, sendo por este motivo que, cada cultura, tem seus ritos e sua forma de lidar com as fases lunares, levando-os muito a sério. Desta forma, se dá a organização do calendário dos índios Xerentes:

Eles dividem o ano em duas partes: 

1º) quatro luas de estação seca, aproximadamente de junho a setembro; 

2º) nove luas de chuva (a-ké-nan) de setembro a maio. Durante os dois primeiros meses da estação seca, eles limpam um pedaço de floresta derrubando as árvores maiores. 

Durante os dois meses seguintes, queimam o mato e semeiam, para aproveitar as chuvas do fim de setembro e de outubro (J. F. DE OLIVEIRA, 1912 P.393-94 apud LEVISTRAUSS, 1964 P.252).

Segundo RODRIGUES (1998), a Lua nova exerce influência direta no transporte natural de seiva nos vegetais, que se manifesta em maior quantidade no caule, direcionando-se em seguida aos ramos, o que favorece o crescimento e desenvolvimento das plantas, principalmente no aproveitamento das folhas, como as hortaliças, que são colhidas pelos indígenas, preferencialmente, no período desta fase lunar. Durante esta fase da Lua nova, torna-se atrativo o plantio de árvores, cujo objetivo é a produção de madeira. Para a colheita dos frutos, o melhor momento da Lua, é quando ela está cheia, pois os frutos estão mais macios e suculentos, devido a maior quantidade de seiva no interior dos mesmos. Na Lua minguante, as plantas absorvem menos seiva, por este motivo, o caule, as folhas e os ramos se tornam mais secos, sendo nesta fase, recomendada a colheita do bambu e das madeiras para construções, devido a maior durabilidade e resistência desses em relação à parasitas.

Outro fenômeno natural, que é explicado e relacionado, através dos mitos e saberes indígenas, com as influencias lunares, é a onda pororoca, que por sua vez, é protagonista em um dos mitos mais contados pelos indígenas. Porém, a pororoca explica-se, através das mudanças nos mares, a partir de duas fases lunares, assim como exemplifica Murgel:

Tal onda é causada pela elevação súbita da maré no oceano, em tempos de sizígia (isto é, nas grandes marés causadas pela conjunção ou oposição da lua com o sol, ou seja, marés de “lua nova” e “lua cheia”). A elevação da maré represa os rios no estuário, fazendo com que suas águas recuem, formando uma grande corrente em sentido contrário ao seu curso normal. Havendo um estreitamento no rio, o nível da água se eleva muito repentinamente e, se houver alguma saliência no leito (os freqüentes baixios formados pela deposição de sedimentos), esse obstáculo faz a água amontoar-se bruscamente, originando a onda que subindo sempre termina por rebentar fragorosamente, como pode ser observado no Guamá, o grande rio que circula Belém (MURGEL, 1930, p. 59).

A partir das práticas cotidianas de observação da Lua, os índios Tupi-Guarani, notavam modificações no comportamento dos animais, de acordo com a luminosidade apresentada no ambiente, quanto mais brilhante estivesse a Lua, mais agitados ficavam os animais, fator este que, proporcionava melhores condições para caçar.

Essa agitação animal ocorre entre os períodos de Lua nova e de Lua cheia. Outro fator importante, demonstrado pelos índios Guaranis, sendo um conhecimento que pode ser aproveitado no combate as pragas, como exemplo, o mosquito da dengue (Aedes Aegypti), se dá, devido a sabedoria de que a melhor época para combate-los é durante a Lua cheia, já que, os insetos ficam mais agitados por razão da maior luminosidade. A incidência do mosquito da dengue (Aedes Aegypti), também aumenta durante o período de Lua cheia, sendo este o motivo de a dedetização ser mais eficaz neste período (AFONSO, 2014).

As aldeias litorâneas Guarani, da mesma forma como os Tupinambá, relacionam as fases da Lua diretamente com as estações do ano e com as marés. De acordo com os índios, a melhor fase para pescar o camarão é entre os meses de Fevereiro e Abril, quando o nível das marés está elevado, ocorrendo durante o período da Lua cheia. Normalmente ao sair para pescarem, os índios já sabem quais espécies de peixes vão conseguir pegar em abundância, isso acontece, porque os índios conhecem muito bem as fases da Lua e a época do ano certa para a pesca, alem de ter um conhecimento muito grande sobre a fauna do meio-ambiente onde vivem, já que são exímios observadores da natureza (AFONSO, 2006). 

Segundo D’Abbdevile os índios Tupinambá distinguiam dois momentos das cheias das marés, que aconteciam sempre na Lua nova e na Lua cheia. O conhecimento das marés, pelos índios, se dá anteriormente ao desenvolvimento deste conhecimento pelos europeus, uma das explicações que podem ser dadas para este fato, diz respeito a localização do território brasileiro, que está em quase toda sua extensão, entre os trópicos, onde, por sua vez, a observação e a relação das marés com as fases lunares é mais facilmente realizada. (AFONSO, 2006).

A cultura indígena, de forma geral, baseia suas crenças e explicações dos fenômenos naturais, a partir dos mitos, contados e recontados por seus antepassados, desta forma, para as explicações das características da Lua, assim como das fases lunares, não acontece diferente. Os índios Tupi-Guarani, através de suas observações da Lua e dos efeitos naturais que ocorriam ao fim de suas fases, criaram um mito, para descrever e explicar o porque, das características físicas da Lua e suas influências, fazendo isto, a partir de suas crenças nos astros como deuses.

LUA, IRMÃO DO SOL, entrava tateando no escuro, no quarto da irmã de seu pai, com a intenção de fazer amor com ela. Para saber quem a importunava todas as noites, sua tia lambuzou os dedos com resina e de noite, enquanto Lua a procurava, passou a mão em sua face. No dia seguinte, bem cedo, Lua foi lavar a face para retirar a resina. No entanto, a substância não saiu, e ele ficou mais sujo ainda. Por esse motivo, Lua tem sempre a face manchada. Desde então, a lua nova lava seu rosto, fazendo chover para tentar tirar as manchas de resina, que ficam mais visíveis quando ela se torna cheia. Essa fábula ensina aosTupis-Guarani que não devem cometer incesto. (AFONSO, 2006 p.52).

Para muitas nações indígenas, a chegada do ano novo era durante o solstício de inverno (~21 de junho), tal como o wiñol Tripanto ou We Tripanto dos Mapuche do Chile ou os habitantes da aldeia Pokanoket, da nação indígena norte americana Wampanoag, que também via o ano de 28 dias e 13 luas nas costas da tartaruga, de acordo com o livro  "Thirteen Moons on Turtle's Back de Joseph Bruchac.

Constelações Tupinambá 

Agora que já sabe como a maioria das nações indígenas dividiam o ano no calendário da tartaruga, conheça também algumas constelações indígenas ancestrais. 

Dois anos antes de Jeronimo chegar em Jericoacoara, no ano de 1612, o missionário capuchinho francês Claude d’Abbeville passou quatro meses com os Tupinambá do Maranhão, perto da Linha do Equador. No seu livro “Histoire de la Mission de Pères Capucins en l’Isle de Maragnan et terres circonvoisins”, publicado em Paris, em 1614, considerado uma das mais importantes fontes da etnografia dos Tupi, ele registrou o nome de cerca de 30 estrelas (îasytatá em Tupi-Antigo) e constelações conhecidas pelos índios da ilha. Infelizmente, foram devidamente associadas à aquelas que conhecemos.

As observações do céu que realizamos com índios de todas as regiões do Brasil permitiram localizar a maioria das constelações Tupinambá, apenas relatadas por d`Abbeville e de diversas outras etnias indígenas brasileiras.

Um dos motivos que nos incentivou a realizar este trabalho de resgate da astronomia indígena brasileira foi verificar que o sistema astronômico dos extintos Tupinambá do Maranhão, descrito por d’Abbeville, é muito semelhante ao utilizado, atualmente, pelos Guarani do Sul do Brasil, embora separados pelas línguas (Tupi e Guarani), pelo espaço (mais de 2.500 km, em linha reta) e pelo tempo (quase 400 anos). Verificamos, também, que algumas das constelações dos índios brasileiros, utilizadas no cotidiano, são as mesmas de outros índios da América do Sul e dos aborígines australianos.

Os índios brasileiros davam maior importância às constelações localizadas na Via Láctea, que podiam ser constituídas de estrelas individuais e de nebulosas, principalmente as escuras. A Via Láctea é chamada de Caminho da Anta (Tapi’i rapé, em guarani) pela maioria das etnias dos índios brasileiros, devido principalmente às constelações representando uma Anta (Tapi’i, em guarani) que nela se localizam.


A CONSTELAÇÃO DA EMA

A CONSTELAÇÃO TUPINAMBÁ DA EMA - YANDUTIN

Em relação à constelação da Ema, d’Abbeville relatou: “Os Tupinambá conhecem uma constelação denominada Iandutim, ou Avestruz Branca, formada de estrelas muito grandes e brilhantes, algumas das quais

representam um bico. Dizem os maranhenses que ela procura devorar duas outras estrelas que lhes estão juntas e às quais denominam uirá-upiá”. Ele chamou de Avestruz Branca a constelação da Ema, no entanto, a avestruz (Struthio Camelus Australis) não é uma ave brasileira. A ema parece com a avestruz, mas é menor e de família diferente.

Na segunda quinzena de junho, quando a Ema (Guirá Nhandu, em guarani) surge totalmente ao anoitecer, no lado leste, indica o início do inverno para os índios do sul do Brasil e o início da estação seca para os índios do norte do Brasil.

A constelação da Ema fica na região do céu limitada pelas constelações ocidentais Crux e Scorpius. Ela é formada utilizando, também, estrelas das constelações Musca, Centaurus, Triangulum Australe, Ara, Telescopium, Lupus e Circinus.

A cabeça da Ema é formada pelas estrelas que envolvem o Saco de Carvão, uma nebulosa escura que fica perto da estrela α Crucis (Acrux). O bico da Ema é formado pelas estrelas α Muscae e β Muscae. A Ema tenta devorar dois ovos de pássaro (Guirá-Rupiá, em guarani) que ficam perto de seu bico. Os ovos são as estrelas δ Muscae e γ Muscae.

As estrelas α Centauri (Rigel Kentaurus) e β Centauri estão dentro do pescoço da Ema. Elas representam dois ovos que a Ema acabou de engolir.

A parte de baixo do corpo da Ema começa a ser formada pela estrela β Trianguli Australis, passando pelas estrelas η Arae, ζ Arae e ε1 Arae e pelas estrelas ζ Scorpii, µ1 Scorpii, ε Scorpii, τ Scorpii, α Scorpii (Antares) e σ Scorpii, terminando em δ Scorpii.

Uma das pernas da Ema é formada pelas estrelas da cauda de Scorpius, começando na estrela δ Scorpii e termina nos dedos do pé representados pelas estrelas υ Scorpii (Lesath), λ Scorpii (Shaula) e SAO 209318. A outra perna começa na estrela ε1 Arae, passa pela estrela α Arae e termina nos dedos do pé formado pelas estrelas α Telescopii, ε Telescopii e ζ Telescopii.

A cauda da Ema é formada pelas estrelas δ Scorpii, β1 Scorpii (Graffias), ω1 Scorpii, ω2 Scorpii e ν Scorpii, todas da garra de Scorpius.

A parte de cima do corpo da Ema, é formada pelas estrelas δ Scorpii, π Scorpii e ρ Scorpii também da garra de Scorpius, seguida pelas estrelas χ Lupi, γ Lupi, ε Lupi, κ Lupi e ζ Lupi, terminando na estrela β Circini, onde começa o seu pescoço.

Dentro do corpo da Ema, as manchas claras e escuras da Via Láctea ajudam a visualizar a plumagem da Ema.

A constelação Scorpius, excluindo suas garras e as estrelas que estão acima de Antares, representa uma Cobra (Mboi, em Guarani) para os índios brasileiros, sendo Antares a sua cabeça. De fato, é muito mais fácil imaginar uma cobra que um escorpião nessa região do céu.

Ao Sul do Trópico de Capricórnio, a constelação ocidental Scorpius é conhecida como de inverno e perto da Linha do Equador como de seca, tendo em vista que ela pode ser observada, ao anoitecer, nessas estações. 

Essa constelação, sem as garras, representa um cobra para os índios brasileiros.


A CONSTELAÇÃO DO HOMEM VELHO

A CONSTELAÇÃO TUPINAMBA DO HOMEM VELHO - TUYAVAÉ

Em relação à constelação do Homem Velho, d’Abbeville relatou: “Tuivaé, Homem Velho, é como chamam outra constelação formada de muitas estrelas, semelhante a um homem velho pegando um bastão”.

 Na segunda quinzena de dezembro, quando o Homem Velho (Tuya, em guarani) surge totalmente ao anoitecer, no lado Leste, indica o início do verão para os índios do sul do Brasil e o início da estação chuvosa para os índios do norte do Brasil.

A constelação do Homem Velho é formada pelas constelações ocidentais Taurus e Orion.

Conta o mito que essa constelação representa um homem cuja esposa estava interessada no seu irmão. Para ficar com o cunhado, a esposa matou o marido, cortando-lhe a perna. Os deuses ficaram com pena do marido e o transformaram em uma constelação.

A constelação do Homem Velho contém três outras constelações indígenas, cujos nomes em guarani são: Eixu (as Pleiades), Tapi’i rainhykã (as Hyades, incluindo Aldebaran) e Joykexo (O Cinturão de Orion).

Eixu significa ninho de abelhas. Essa constelação marca o início de ano, quando surge pela primeira vez no lado oeste, antes do nascer do Sol (nascer helíaco das Plêiades), na primeira quinzena de junho. Segundo d’Abbeville, os Tupinambá conheciam muito bem o aglomerado estelar das Plêiades e o denominavam Eixu (Vespeiro). Quando elas apareciam afirmavam que as chuvas iam chegar, como chegavam, efetivamente, poucos dias depois. Como a constelação Eixu aparecia alguns dias antes das chuvas e desaparecia no fim para tornar a reaparecer em igual época, eles reconheciam perfeitamente o intervalo de tempo decorrido de um ano a outro.

Tapi’i rainhykã significa a queixada da anta e anunciava que as chuvas estavam chegando, para os Tupinambá. Joykexo representa uma linda mulher, símbolo da fertilidade, servindo como orientação geográfica, pois essa constelação nasce no ponto cardeal leste e se põe no ponto cardeal oeste Joykexo também representa o caminho dos mortos.

A cabeça do Homem Velho é formada pelas estrelas do aglomerado estelar Hyades em cuja direção se encontra α Tauri (Aldebaran), a estrela mais brilhante da constelação Taurus.

Acima da cabeça do Homem Velho fica o aglomerado estelar das Plêiades que representa um penacho que ele tem amarrado à sua cabeça.

O pescoço do Homem Velho começa em Aldebaran e termina na estrela ο2 Orionis, de onde partem seus braços.

Um de seus braços termina em ζ Tauri. O outro braço termina em π6 Orionis, passando por todo o escudo de Orion.

A linha reta que vai de π5 Orionis até β Orionis (Rigel), representa um bastão que o Homem Velho utiliza para se equilibrar.

A estrela γ Orionis (Bellatrix) fica na virilha do Homem Velho, sendo que a estrela vermelha α Orionis (Beltegeuse) representa o lugar em que sua perna foi cortada. O Cinturão de Órion (Três Marias) formado pelas estrelas δ Orionis (Mintaka), ε Orionis (Alnilam) e ζ Orionis (Alnitak) representa o joelho da perna sadia. A estrela κ Orionis (Saiph) representa o pé da perna sadia.

Ao Sul do Trópico de Capricórnio, a constelação ocidental Orion é conhecida como constelação de verão e perto da Linha do Equador como de chuva, tendo em vista que ela pode ser observada, ao anoitecer, nessas estações.


CONSTELAÇÃO DA ANTA DO NORTE

CONSTELAÇÃO TUPINAMBA DA ANTA DO NORTE - TAPI'I

A constelação da Anta do Norte é conhecida principalmente pelas etnias de índios brasileiros que habitam na região norte do Brasil, tendo em vista que para as etnias da região sul ela fica muito próxima da linha do horizonte. Ela fica totalmente na Via Láctea, que participa muito nas definições de seu contorno, fornecendo uma imagem impressionante dessa constelação. 

Existem outras constelações representando uma Anta (Tapi’i, em guarani) na Via Láctea, por isso chamamos essa constelação de Anta do Norte.

Segundo Afonso (2006), os indígenas brasileiros, dão maior importância, àquelas constelações quehabitam a Via Láctea, ou Tapi’i’rapé, a Via Láctea é chamada de Caminho da Anta devido, principalmente, à  constelação da Anta do Norte.

Na segunda quinzena de setembro, a Anta do Norte surge ao anoitecer, no lado Leste, indica uma estação de transição entre o frio e calor para os índios do sul do Brasil e entre a seca e a chuva para os índios do norte do Brasil.

A constelação da Anta do Norte fica na região do céu limitada pelas constelações ocidentais Cygnus (Cisne) e Cassiopeia (Cassiopéia). Ela é

formada utilizando, também, estrelas da constelação Lacerta (Lagarta), Cepheus (Cefeu) e Andromeda (Andrômeda).

A estrela α Cygni (Deneb) representa o focinho da Anta do Norte, sendo que 55 Cygni, ξ Cygni e 59 Cygni representam sua boca. O restante da cabeça é formado pelas estrelas 74 Cygni, σ Cygni, ν Cygni, 56 Cygni, 63 Cygni e π2 Cygni.

As estrelas τ Cygni e 72 Cygni representam as orelhas da Anta do Norte.

A parte de cima do pescoço começa em SAO 51904 (2 Lacertae) e a parte de baixo em ζ Cephei.

A parte de baixo do corpo da Anta do Norte começa a ser formada pela estrela ζ Cephei, passando pelas estrelas β Cassiopeiae (Caph) e α Cassiopeiae (Schedar), terminando em ζ Cassiopeiae.

As duas pernas da frente começam em ζ Cephei, sendo que uma delas termina em α Cephei (Alderamin) e a outra termina ι Cephei. As duas pernas de trás começam em β Cassiopeiae (Caph), sendo que uma delas termina em κ Cassiopeiae e a outra em δ Cassiopeiae (Ruchbah).

A cauda da Anta do Norte é representada pelas estrelas ζ Cassiopeiae e µ Cassiopeiae.

A parte de cima do corpo da Anta do Norte é formada pelas estrelas ζ Cassiopeiae, ψ Andromedae e λ Andromedae, terminando na estrela SAO 51904, onde começa o seu pescoço.


A CONSTELAÇÃO DO VEADO

A CONSTELAÇÃO TUPINAMBÁ DO VEADO - SYGÛASU


A constelação do Veado é conhecida principalmente pelas etnias de índios brasileiros que habitam na região sul do Brasil, tendo em vista que para as etnias da região norte ela fica muito próxima da linha do horizonte.

Na segunda quinzena de março, o Veado surge ao anoitecer, no lado Leste, indica uma estação de transição entre o calor e o frio para os índios do sul do Brasil e entre a chuva e a seca para os índios do norte do Brasil.

A constelação do Veado fica na região do céu limitada pelas constelações ocidentais Vela (Vela) e Crux (Cruzeiro do Sul). Ela é formada utilizando, também, estrelas da constelação Carina (Carina) e Centaurus (Centauro).

A estrela γ Velorum (Suhail Al Muhlif) representa o focinho do Veado, sendo que sua cabeça é formada pelas estrelas SAO220138, SAO 220803, λ Velorum (Alsuhail), SAO 220371 e SAO 220204.

Partindo da estrela λ Velorum até as estrelas ψ Velorum e SAO 200163, temos os dois chifres do Veado.

 A parte de cima do pescoço começa em κ Velorum e vai até SAO 220803, a parte de baixo começa em δ Velorum e vai até SAO 220138.

A parte de baixo do corpo do Veado começa a ser formada pela estrela δ Velorum, passando pelas estrelas ι Carinae (Aspidiske), SAO 250683, θ Carinae, η Crucis, ζ Crucis, α Crucis e ε Crucis, terminando em δ Crucis.

A cauda do Veado é representada pelas estrelas δ Crucis, β Crucis e γ Crucis. A parte traseira do Veado é formada por todas as estrelas da constelação Crux.

As duas pernas da frente começam em SAO 250683 e θ Carinae sendo que uma delas passa por υ Carinae, terminando em β Carinae (Miaplacidus) e a outra termina em ω Carinae. As duas pernas de trás começam em η Crucis e ζ Crucis sendo que uma delas passa por λ Muscae e ε Muscae, terminando em γ Muscae e a outra passa por α Muscae e β Muscae, terminando em δ Muscae.

A parte de cima do corpo do Veado é formada pelas estrelas γ Crucis, π Centauri e φ Velorum, terminando na estrela κ Velorum, onde começa o seu pescoço.


Referencias

Afonso -Constelações Indígenas de Germano Afonso - Germano Bruno Afonso (UFPR)

BRANCO, Samuel Murgel. O desafio amazônico. 2ª edição. Editora Moderna. São Paulo: Brasil, 1930.

Bruchac - Thirteen Moons on Turtle's Back de Joseph Bruchac

FILHO, Alexandre Toccoli; /OLIVEIRA, Matheus Carvalho de; /RIBEIRO, Rafael Bicudo; /SANTOS, Rodrigo Silva

Malaquias dos. Cosmologia indígena brasileira: Tupinambás e Guaranis. Disponível em:

http://disciplinas.stoa.usp.br/pluginfile.php/246176/mod_resource/content/1/Cosmologia%20ind%C3%ADgena%20

brasileira%20-%20Tupinamb%C3%A1s%20e%20Guaranis.pdf. Acesso em: 2 Abr.2016.

LEVI-STRAUSS, Claude. O cru e o cozido. Editora Cosac & Naify. São Paulo: Brasiliense, 1991.

ROSENFIELD, Rogério. A cosmologia. Disponível em:

http://www.sbfisica.org.br/fne/Vol6/Num1/cosmologia.pdf. Acesso em: 5 Mai.2016

MARQUES, C. T dos S; / GAMA, E. V. S; / CARVALHO, A. J. A; / SILVA, F; / FRIAS., M. T. RODRIGUES,

L. Relato sobre a Influência da Lua na Agricultura. Vitória: 1998.

D’ABBEVILE, Claude. História da missão dos padres capuchinhos na ilha do maranhão e suas

circumvisinhanças. Paris, 1614.

AFONSO, G. B. As constelações indígenas brasileiras. Observatórios Virtuais, USP, 2004.

AFONSO, G. B. Mitos e Estações no céu Tupi-Guarani. Scientific American Brasil, 2006. Disponível

em: http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/mitos_e_estacees_no_ceu_tupi-guarani.html

LUCIANO, Gersen dos Santos. O índio brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos

indígenas no Brasil de hoje. Coleção educação para todos. Brasília: MEC/Secad; LACED/Museu

Nacional.

FABIAN, Stephen M. Space-Time of the Bororó of Brazil. Gainesville: University Press of Florida, 1992.



quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Conversação em Tupi Antigo - Aula 2


 

Nessa segunda lição, Pindobuçu que mora na periferia de Carapicuíba resolve acompanhar Rembémumbú ao encontro dos amigos Potiguara, que marcaram um encontro no Espaço Cultural Inhapuambuçu, no centro histórico de São Paulo de Piratininga. As instalações e edifícios foram construídos no lugar da famosa aldeia de Tibiriçá a 600 anos atrás e hoje abriga o CCCRT (Centro da Cultura, Ciência e Religião Tupiniquim), onde natureza e ciência convivem lado a lado.

Assista ao vídeo

Para uma perfeita compreensão do que é Sumietama, e da proposta de ensino do Tupi-Antrigo através da conversação, visite a primeira lição nesse blog e no YouTube.

Texto Luiz Pagano
Tradução Professor Farias

Para uma perfeita compreensão do que é Sumietama, e da proposta de ensino do Tupi-Antrigo através da conversação, visite a primeira lição nesse blog e no YouTube.

Transcrição e Tradução

1-Pindobuçu – Venha Rembémumbú tem uma estação de trem* logo ali na esquina.
Eîori, Rembémumbú gûé. Aîpó rapé rupi ogûerekó tatánhandarusuba'e* pytasaba. 
(lit. Venha, ó Rembémumbú. Aquele caminho por ele tem "o que é  corredor grande de fogo = trem" lugar de ficar =estação )

*Como no idioma Tupi-Antigo não exisitia a palavra trem* o professor Faias, resolveu usar um recurso adotado na lingua Chinesa (que ele tambêm domina) de compor palavras conhecidas para descrever elementos e inventos da moderna civilização. No caso do TREM, ele usou tatánhandarusuba'e, cuja tradução literal é ‘corredor grande de fogo’, e para a palavra ESTAÇÃO usou pytasaba, literalmente o ‘lugar de se ficar’.

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2- Rembémumbú – Você sabe onde está indo?
Rembémumbú – Ereikuab-y-pe mamõ nde soagûa-me? 
(lit. Você sabe onde a sua ida futura para?)

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3-Pindobuçu – Para ser honesto, me atrapalho um pouco na cidade grande.
Pindobuçu – Anheté, ndaikuabi xe tabusu pupé gûatasaba. 
(lit. Verdadeiramente, eu não sei eu aldeia grande caminhada)

Rembémumbú aborda alguns passantes para pedir informações.
Rembémumbú amõ gûatasara supé oîporandub pekuguapaba resé. 
(lit. Rembémumbú alguns andarilhos para, ele os pergunta indicação do caminho sobre)

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4- Rembémumbú – Com licença, Pode nos dar uma informação?
Rembémumbú – Ereikobékatu-pe? T'ere nhe'eng ixebe poranduba amõ mba'e resé. 
(lit. Você vive bem? Que você fale-me informações alguma coisa sobre).

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5- Por favor, como podemos fazer para chegar no CCCRT?
Oré soaguama CCCRT pe resé, marã-pe orogûatá akûeipe? 
(lit, Nossa ida futura CCCRT para -sobre-, como nós caminhamos lá)

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6- Passante (gûatasara) – Siga enfrente até aquela placa**, vire a primeira a esquerda e logo depois verão a estação Jaguaré do trem Iguatemi.

Gûatasara -  Egûatá aîpó kûatiarusu** koty, nã eîkobo erobak oîepé asu koty, a'eriré eresepîak Jaguaré tatánhandarusuba'e pytasaba Iguatemi seryba'e. 

(lit. Caminhe aquele escrito grande em direção, assim você estando vire um lado esquerdo em direção, depois disso você ver Jaguaré o que é estaçao de trem Jaguaré, Iguatemi chamado)

**Tal como fez com trem, o Professor Farias traduziu placa como kûatiarusu “escrito grande”.

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7-Pindobuçu – Muito obrigado, senhora! 
Aûiébeté, kunhã gué!
(lit. Já está bem, ó mulher!)

Não falei? Era só virar a direita ali na frente!
Ndae'i umã-pe? T'îandé kûab îandé ekatuaba aipó rapé sobaké ae. 
(lit. Eu não disse já? Que nós passemos o nosso lado direito aquele caminho frente dele é mesmo)

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8- Rembémumbú – Haja paciência!!
Ta sosãmbyramo ixé ne!!! 
(lit. Que eu seja como aquele que está na condição de paciente)

No trem  
tatánhandarusuba'e pupé. 

9- Rembémumbú – Meu Deus! Que coisa linda! 
Tó! Ikó mba'e i porangatueté nhë.
(lit. Ó, esta coisa e muito bonita verdadeiramente!

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10-Pindobuçu – São as fazendas de mandioca.
Pindobuçu – Mandiomityma*** ae. 
(lit. Mandioca plantações elas são.)

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11- Rembémumbú – E aquilo lá encima, o que é?
Aete-pe aîpó mba'e ybaté-pe, marãpipó?
(lit. E aquelas coisas no alto, como são por acaso?)

12-Pindobuçu – São Araras Azuis.
Pindobuçu – Araroby**** a'e. 
(lit. Araras azuis elas são) 

13- Rembémumbú – Como a cidade grande é maravilhosa!
Tabusu i porangatu nhë.
(lit. A aldeia grande é muito bonita de fato!)

Pindobuçu – Chegamos!! 
Îandé sykaba iké nhë.
(lit. Nossa chegada é aqui!!)

Notas dos Professores

Como Sumetama é uma civilização inventada a partir da extrapolação do que teria sido a evolução de aldeias Tupiniquins, Tupinambá, etc., resolvemos adotar e criar alguns conceitos não existentes nas época antigas, mas completamente baseado e orientado para o perfeito uso do Tupi Antigo, evitando ao máximo o uso neologismos. 

A cidade chama-se São Paulo de Piratininga (atual São Paulo) porque nessa cidade utópica fictícia os Tupiniquins resolveram viver em paz com os Portugueses permitindo que cultuassem rua religião (cristã) desde que não interferisse no modo de vida Tupinambá. Trens e elementos de nossa tecnologia atual se desenvolveram muito ao se juntar com o conhecimento ancestral indígena, numa civilização simbiótica (não parasitária e colonialista que nosso curso histórico seguiu no Brasil) .

Algumas tecnologias fictícias que surgem em nossa obra de ficção desse próspero casamrnto de culturas são as chamadas Araroby**** Araras Azuis, balões meteorológicos que tem a função de limpar o ar de poluentes e reaproveitar substâncias químicas em sintetizadores, e as Mandiomityma*** ,  fazendas de mandioca, que além de produzirem a iguaria, tem sistemas bioeletricos que aproveitam a energia solar das folhas e as transforma em energia elétrica.

Numerais

1oîepé
2mokõî
3mosapyr
4 irundyk
5Xe pó (minha mão)
6Xe pó oîepé (minha mão e um)
7Xe pó mokõî (minha mão e dois)
8Xe pó mosapyr (minha mão e três)
9Xe pó irundyk (minha mão e quatro)
10Mokõî pó (duas mãos)
Os numerais ordinais são:
1º-ypy
2º-mokõîa
3-mosapyra
4-irundyka

Notas Gramaticais, 

Os números cardinais podem anteceder ou vir após o nome que se referem:

mosapyr îakaré a-îuká ou îakaré mosapyr a-îuká (matei três jacarés)

Os numerais ordinais sempre vêmn após o nome a que se referem:

Tupã o-î-monhang abá ypy (Deus fez primeiro o homem)

Em tupi antigo não existe numeração acima de quatro,para expressar unidades acima utilizam-se alguns recursos como xe pó (minhas mãos) para cinco e etc., a numeração do Tupi Antigo é a seguinte:

1-oîepé
2-mokõî
3-mosapyr
4-irundyk

Os numerais ordinais são:

1º-ypy
2º-mokõîa
3-mosapyra
4-irundyka

Notas Gramaticais: Os números cardinais podem anteceder ou vir após o nome que se referem:

mosapyr îakaré a-îuká ou îakaré mosapyr a-îuká (matei três jacarés)

Os numerais ordinais sempre vêmn após o nome a que se referem:

Tupã o-î-monhang abá ypy (Deus fez primeiro o homem)


As indicações básicas de direção são:
Em direção ao lado direito ( ikatuaba koty);
Em direção ao lado esqurdo ( asu koty);

Referências

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, ...

Barbosa, Pe. A. Lemos,
Pequeno vocabulário Português-Tupi - 1970
Título: Pequeno vocabulário Português-Tupi-Rio de Janeiro: Livraria São José

Barbosa, Pe. A. Lemos,
Curso de Tupi Antigo - Livraria São José, Rio de Janeiro.
Luiz Caldas Tibiriçá - Dicionário tupi português - Traço Editora, 1984

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Conversação em Tupi Antigo - Aula 1

Uma das boas forma de aprender um idioma é a pratica diária, más infelizmente, salvo raras exceções, não temos esse tipo de oportunidade - nesse sentido, criamos essa historinha em quadrinhos com textos em o Tupi Antigo.

SUMIETAMA

SUMIETAMA é uma civilização muito mais avançada que a nossa, formada por centenas de nações indígenas, é um universo escondido dentro do grande Brasil, fundada milênios antes da chegada dos colonizadores portugueses pelo lendário Sumié.

Assista ao video 


Em SUMIETAMA todo conhecimento ancestral e das tecnologias do mundo atual se misturam, a população vive em perfeita harmonia com a natureza, recicla 100% dos seu lixo, não polui águas nem o ar, e usam o Tupi-Antigo como idioma comum para os mais de 300 povos ancestrais brasileiros.

Acompanhe as aventuras da família Ybyrapytanga em SUMIETAMA enquanto aprende o básico de conversação em Tupi-Antigo.



Aula de conversação I – a chegada de Rembémumbu - Texto em Tupi por Romildo Araújo (clique aqui para conhecer mais o trabalho do Professor Romildo em Tupi Antigo)

Transcrição e Tradução

1-Pindobuçu – Type chegou, e ele vem acompanhado de uma amigo.
Té! Type our umã! A’e our tapixara irunamo. 

2-Potyra – Abra a porta para ele, meu filho.
Xe membyr îu! Esokendabok îandé roka t’our a’e.

3-Pindobuçu – vieste de Reritiba, meu primo?
Ereîúrype Rerityba suí, xe rybyra gûé?

4-Type – Sim eu vim. Deixe eu apresentá-lo, este é meu amigo Rembémumbú.
Pá! Aîur, xe ryky’yra.  T’arokûab, ikó xe raûsupara Rembemumbú.

5-[Olá!] Muito prazer, meu nome é Rembemumbú, sou da etnia Aimoré.
Eîkobé! Xe roryb nde kuapa, Xe rera Rembémumbu, xé anama é Aimoré.

6-Pindobuçu - Logo deduzi pelo botoque em seus lábios - entre por favor.
Aîkugûab aûnhenhẽ nde tembé botoque repîaka. - T’ereîké, xe irũ

Na cozinha (Tembi’u moîypá’pe)

7-Potyra  – Sejam bem vindos em nossa casa.
Ta peîkókatu oré róka pupé!

8-Type – Estou feliz por estar aqui. A senhora está preparando maniçoba?
Xe roryb iké gûitekóbo! Endé tembi’u manisoba ereîapó eîkóbo serã?

9-Potyra – Sim, e esta noite eu te convido para jantar.
Eẽ, kó Pytũneme, ixé oroso’o t’îakaru ne .  

10- Type – Me desculpe, essa noite eu não posso, tenho um compromisso na casa de amigos Potiguaras.
Nde nhyrõ xébe. Kó pytũneme nda’ekatuî. Aîkó temone xe rapixara Potiguara roka pupé.

11-Pindobusu – que pena, a maniçoba de minha mãe é a melhor de Piratininga
Erĩ, Tembi’u manisoba xe sy rembiapó sékatueté Pirarininga suíxûara suí.

12-Type – o cheiro está muito bom!!
Syapûangatu nhẽ!

Pindobuçú – não tem problema, da próxima vez que vier aqui prepararemos de novo a maniçoba para comermos.
I marane’ym! Nde rúsagûãme abé, t’îaîapó abé Manisoba t’îa’u ne.

——

...GOSTOU? ...não perca tempo, assista a segunda aula clicando aqui

Vocabulário

EikobéOlá
EmbéBeiço, lábio
Embi'uComida, bebida
Gûitekóbo Correspondente ao nosso “estar”, no gerúndio
irunamoAcompanhado de
Ka'uBeber Cauim
Maranestar aflito, enfermo, ter problema
MenbyraFilho
Nhyrõ(xe) Perdoar, ser pacífico
Sim
PytũnaNoite
RybyraPrimo
Tapixara, rapixaraAmigo, semelhante, o próximo


Conjugação do verbo Karú - Comer 
(o hífen no morfema a frente do verbo foi colocado por questões didáticas, não há necessidade de uso na escrita) 


ixé a-karúEu como
endé ere-karúTu comes
a'e o-karúEle/ela come
oré oró-karúNós comemos (exclusivo)
îandé îa-karúNós comemos (inclusivo)
peẽ pe-karúVós comestes
a'e o-karúEles/elas comem
Notas dos Professores

Como Sumetama é uma civilização inventada a partir da estrapolação do que teria sido a evolução de aldeias Tupiniquins, Tupinambás, etc., resolvemos adotar e criar alguns conceitos não existentes nas época antigas, mas completamente baseado e orientado para o perfeito uso do Tupi Antigo, evitando ao máximo o uso neologismos. As palavras inventadas serão devidamente informadas no decorrer das aulas.


a - Na linha 2 
Potyra diz “Abra a porta para ele, meu filho” nos ilustrando essa dificuldade, posto que, não existiam portas nas casas nas aldeias pre-colonialistas.

O professor Romildo usou “Xe membyr îu! Esokendabok îandé roka t’our a’e” – onde Oka (r-, s-) significa casa e porta é escrita como Okena (r-, s-).

Em textos bíblicos traduzidos para o Tupi Antigo vemos a seguinte passagem “que disse a mulher que guardava a porta de São Pedro?” – traduzido da seguinte forma “Marã e’ipe kunhã okena rerekoara São Pedro supé? (A.r., Cat 55v)

Okendab – (s) (v, tr) – fechar (porta, janela, carta), encerrar (pessoa, etc.:):

Osokendab a’e karamemûã itagâsu pupé.
Fecharam aquele tumulo com uma pedra grande. (A.r., Cat 64v);

Itá karamemûã pupé i nongi, sokendapa.
Dentro de uma sepultura de pedra puseram-no, fechando-a (Benttendorff, Compêndio, 50);

E por fim Okendaba (Okendapaba) é o nome dado ao instrumento de madeira usado para fechar protas, prendendo-a ao batente.

Com isso temos:

Okendabok – entrada (de casa, de casa, de caixa, etc); porta, janela (VLB, I, 18);

Okendabok (s) (etim.  – arrancar o tampo) (v. Tr.) – abrir (p. Ex., a porta, a janela, o tampo de):Esokendabok nde roka. – Abra a porta de tua casa (VBB. I, 18);

Dessa forma ainda podemos dizer:

Fechar a porta
Okenda-pab.

Ou

Fechar a porta
Okendab-a.

Abrir a porta
Okendab-‘ok.

A-sokendab xe roka
Fechei a porta da minha casa.

A saudação Lacrimosa

b- Na linha 3 

3-Pindobuçu diz “vieste de Reritiba, meu primo?”
Ereîúrype Rerityba suí, xe rybyra gûé?

Um dos aspectos mais interessantes dos indigenas de fala Tupi do Brasil quinhentista é a maneira pela qual recebiam seus hospedes e forasteiros. Conforme relata o Padre Fernão Cardim:

“Entrando-lhe algum hóspede pela casa, a honra e agasalho que lhe  fazem é chorarem-no. Entretanto, pois, logo o hóspede na casa, o assentam na rede e, depois  de assentado, sem lhe falarem, a mulher e filhas e mais amigas se assentam ao redor, com os cabelos baixos, tocando com a mão na mesma pessoa, e começam a chorar todas em altas vozes, com grande, com grande abundância de lágrimas e ali contam em prosas trovadas quantas coisas tem acontecido desde que se não viram até aquela hora e outras muitas que imaginam e trabalhos que o hóspede padeceu pelo caminho e tudo o mais que pode provocar a lástima e o choro. O hóspede, nesse tempo, não fala palavra, mas depois de chorarem por bom espaço de tempo, limpam as lágrimas e ficam tão quietas, modestas, serenas e alegres que parece (que) nunca choraram e logo saúdam e dão o seu Ereîupe , e lhe  trazem de comer etc., e depois dessas cerimônias contam os hóspedes ao que vêm. Também os homens choram uns aos outros, mas é em casos alguns graves, como mortes, desastres de guerra, etc. Tem por grande honra agasalharem a todos e darem-lho todo o necessário para sua sustentação e algumas peças como arcos, flechas, pássaros, penas e outras coisas, conforme a sua pobreza, sem algum gênero de estipêndio”.
Tratados da Terra e da Gente do Brasil, p. 108
Saudação Lacrimosa - Arte Tupi-Pop por Luiz Pagano

Obviamente que em Sumietama, uma civilização mais avançada, esse ritual antigo já não é mais performado, no entanto, opta-se por adotar o cumprimento tradicional, que se repete por gerações:

O anfitrião diz:

-Ere îurype?
-Você veio?

E o viajante responde:

-Pa, a îur.
-Sim, eu vim.

Essa pergunta e resposta se repete por três a quatro vezes enquanto memorizam bons momentos de suas relações em comum, até que seus olhos se encham de lagrima.

Ai final usa-se gûé, com o significado de ‘meu querido’ e atualmente pode até ser entendido pelas novas gerações como ‘meu brother’.

Mamõ-pe ere-îkó, xe irũ gûé?
Onde mora você, meu querido companheiro?

Importante que se diga que para mulher usamos iú ou ió

Xe’ma enduar nde sy pupé, Potyr ió
Eu me lembro de sua mãe, querida Potyra

Cumprimentos

Bom dia!Tiá nde ko'ema!
Boa tarde!Tiá nde karuka!
Boa noite!Tiá nde pytúna!
Saúde, tin-tin, cheers!T'reikokatu!
Básicos da Conversação

Com licençande xe repiaki
Por favorio kuereke katuramo
Me desculpende nhyrõ xebé.
Obrigadoaikûguab
Sinto muitoA-î-moasy-katu
Passas bem?Ere-îkobé-pe?
Você está bem?Ere-îkó-katú-pe?
Eu estou bem.A-îkó-katu.
Muito bemAûîébeté
De nadaAîkuab [endé xe pytybõ] =eu reconheço (que tu me ajudou)

Básicos da despedida/outros


Durma bem!T'ere-ké-katu!
Tchau! virei aqui de novoNe'ĩ, a-îur ikó!
Tchau, vou embora!Ne'ĩ, a-só ikó!
Durmam bem!Ta pe-ké-katu!
Vamos nós!T'îa-só-ne!
Fico feliz por você!Xe r-oryb endé r-esé!
Parabéns! Agiste bem!Ere-îkó-katu-eté
Complementos


Verdade!Supindûara
Mentira!Mo'ema
Falso!A'uba
Obrigado!Aûîé, aûîébeté, aîkugûab.
De nada!Aûîé.
Seja Bem vindo!T'ereîukatu
TchauAnheté (até mais)

REFERÊNCIAS

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
N24d

Navarro, Eduardo de Almeida
Dicionário de tupi antigo : a língua indígena clássica do Brasil / Eduardo de Almeida Navarro ; prefácio Ariano Suassuna; [ilustrações Célio Cardoso]. - 1. ed. - São Paulo : Global, 2013. il.

Vocabulário português-tupi e dicionário tupi-português, Tupinismo no português do Brasil, Etimologia de topônimos e e antropônimos de origem tupi
ISBN 978-85-260-1933-1 1.

Língua tupi-guarani - Dicionários - Português. 2. Língua portuguesa - Dicionários - Tupi. I. Suassuna, Ariano, 1927- II. Título.
13-02933
CDD: 498.3829
CDU: 811.87(038)


DIA DO ANHANGÁ NO VALE DO ANHANGABAÚ

 Vamos todos celebrar o dia do Anhangá no Vale do Anhangabaú no dia 17 de Julho, dia do protetor das matas (saiba mais sobre o evento no FAC...