sábado, 17 de outubro de 2020

O Calendário da Tartaruga de 364 dias - Astronomia Ancestral Tupi

 

Ilustração Tupi-Pop do Calendário na carapaça da tartaruga marinha por Kunumi Kûatiasara


Os Tupinambá, Tupiniquim e outras etnias das Américas tinham grande conhecimento de astronomia, a observação de corpos celestes associadas às estações do ano, bem como lendas cosmológicas, era expediente corrente entre esses povos, é possível que compartilhassem conhecimento e discordassem das teorias uns dos outros, o assunto era o mais comum entre os povos da America do Sul, dos Andes e de povos antigos do atual México, levados a cabo pelos rápidos viajantes das trilhas, dentre as quais a mais importante, a do Peabirú. 

Uma das teorias mais ouvidas entre nossas muitas etnias diz respeito ao fato de o ciclo anual de 364 dias estar gravado nas carapaças das tartaruga marinhas da família Cheloniidae, diz a lenda que Jerônimo de Albuquerque Maranhão, bravo guerreiro, responsável pela expulsão dos franceses, filho do nobre português Jerônimo de Albuquerque e da linda princesa indígena pernambucana Muyrã Ubi, filha do cacique Uirá Ubi, (Arco Verde, em português), da aldeia Tindara, batizada em língua portuguesa com o nome de Maria do Espírito Santo Arcoverde, ao chegar em Pé do Serrote fez erguer uma pequena fortaleza, com estacas de madeira para protegerem-se do terrível pirata francês Du Prat, no ano de 1614 de nosso Sr., na companhia dos Tremembé.


Como era profundo conhecedor do idioma Tupi, aproximou-se de uma jovem que brincava com uma tartaruga marinha e percebeu que ela constantemente repetia um verso: 

“kwara'sï - Irundyk po xe pó mosapyr - quatro mãos com minha mão e mais três = 28 (vinte e oito sois), Îasy - Mokõî pó mosapyr – duas mãos e mais três = 13 (treze luas)”;

13 luas e 28 dias, o que seria isso?

Ao perguntar ao pai da garota, esse responde que em todas as carapaças de tartaruga esses números equivalem aos 364 dias que compõem o ano indígena.

Todos os povos indígenas conheciam a sabedoria da tartaruga e seguiram um calendário de 13 meses; afinal, existem 13 ciclos lunares num ano e 27 a 29 dias por ciclo.

Ao comparar com o calendário gregoriano, instituído em 1582, fez parecer que o homem branco tivesse subtraído um mês para cortar a conexão entre as pessoas com o sol e a lua."

O velho índio perguntou então a Jerônimo:

O ano de 364 dias está representado na carapaça da tartaruga marinha

O-î-kuab-ype nde r-a'yra îurukaûá asé r-ekomonhangaba? 

Teu filho desconhece os mandamentos da tartaruga feito a nós?

Envergonhado, ele mente ao velho índio: 

- Pá. O-î-kuab.

Sim, ele os conhece.

Ta nde ma'enduar Tupã asé r-ekomonhangaba r-esé.

Que ele se lembre dos mandamentos da tartaruga feito a nós.

Jerônimo, encantado com a descoberta do calendário no casco das tartarugas, não só fez seus filhos e netos conhecerem o calendário da tartaruga, como também resolveu dar nome ao lugar de ‘Jericoacoara’, do Tupi-Antigo îurukaûá tartaruga-marinha / kûara – toca = Toca das tartarugas.

Os índios Xerente, segundo Levi-Strauss (1964), contam os meses do ano através de lunações, ou seja,através das transições da Lua entre nova, crescente, cheia e minguante, além disto, os Xerentes consideram como o inicio de um ano novo, quando ocorre o aparecimento das Plêiades e o Sol distancia-se da constelação ocidental de Touro, ocorrendo no mês de junho se analisado no calendário ocidental. Um outro importante fator causado pelas Plêiades, diz respeito ao aviso de possíveis ventos, porém, isto ocorre, apenas quando são avistadas no amanhecer. A observação em relação ao nascer da Sururu (Plêiades), para os Xerentes, pode ocorrer de duas formas distintas, às quais eles nomeiam como “nascer helíaco” e “nascer cósmico”, no primeiro o nascer dessa constelação se dá antes do nascer do Sol, no segundo, nascer cósmico, elas nascem em conjunto ao nascer do Sol, dentro deste período de diferença na forma de nascer das Plêiades, contam-se treze luas, ou seja, por treze vezes se cumpriu as quatro fazes da Lua.

Segundo D’Abbevile (1614), para os índios Tupinambá, as Plêiades eram muito comuns, agindo como base de informação meteorológica e cultural, eles a denominavam Seichu, na região da ilha do Maranhão, onde ocorreram as pesquisas empíricas de DAbbevile. As Plêiades aparecem em meados do mês de janeiro, quando os Tupinambá começavam a esperar o período das chuvas. Os Tupinambá da costa nordestina, segundo LeviStrauss (1964), associavam as Plêiades a uma constelação, que denominavam Seichujura, ou seja, colmeia de abelha, o aparecimento desta constelação, para eles, também funcionava como indicadora das chuvas.

As fases da lua

A Lua, satélite natural da terra, a partir de suas fases, serve como referência ao cotidiano dos índios, sendo utilizada como orientação para seu calendário, assim como influencia na contagem das horas e na orientação geográfica. Outra influência muito importante da Lua no cotidiano, diz respeito à agricultura, à caça e à pesca dos povos indígenas, sabendo qual o melhor período para colher frutos, plantar, pescar certas espécies de peixes e quando ocorre a época mais farta para a caça, assim como para o corte da madeira.

Esta influência, segundo D’Abbeville (1614), é também responsável pela vida marinha, sendo conhecida por quase todos os membros da cultura Tubinambá, onde as fases da Lua modificam o ritmo das marés. O conhecimento das fases lunares foi a herança do conhecimento, deixada pelos antepassados indígenas, sendo por este motivo que, cada cultura, tem seus ritos e sua forma de lidar com as fases lunares, levando-os muito a sério. Desta forma, se dá a organização do calendário dos índios Xerentes:

Eles dividem o ano em duas partes: 

1º) quatro luas de estação seca, aproximadamente de junho a setembro; 

2º) nove luas de chuva (a-ké-nan) de setembro a maio. Durante os dois primeiros meses da estação seca, eles limpam um pedaço de floresta derrubando as árvores maiores. 

Durante os dois meses seguintes, queimam o mato e semeiam, para aproveitar as chuvas do fim de setembro e de outubro (J. F. DE OLIVEIRA, 1912 P.393-94 apud LEVISTRAUSS, 1964 P.252).

Segundo RODRIGUES (1998), a Lua nova exerce influência direta no transporte natural de seiva nos vegetais, que se manifesta em maior quantidade no caule, direcionando-se em seguida aos ramos, o que favorece o crescimento e desenvolvimento das plantas, principalmente no aproveitamento das folhas, como as hortaliças, que são colhidas pelos indígenas, preferencialmente, no período desta fase lunar. Durante esta fase da Lua nova, torna-se atrativo o plantio de árvores, cujo objetivo é a produção de madeira. Para a colheita dos frutos, o melhor momento da Lua, é quando ela está cheia, pois os frutos estão mais macios e suculentos, devido a maior quantidade de seiva no interior dos mesmos. Na Lua minguante, as plantas absorvem menos seiva, por este motivo, o caule, as folhas e os ramos se tornam mais secos, sendo nesta fase, recomendada a colheita do bambu e das madeiras para construções, devido a maior durabilidade e resistência desses em relação à parasitas.

Outro fenômeno natural, que é explicado e relacionado, através dos mitos e saberes indígenas, com as influencias lunares, é a onda pororoca, que por sua vez, é protagonista em um dos mitos mais contados pelos indígenas. Porém, a pororoca explica-se, através das mudanças nos mares, a partir de duas fases lunares, assim como exemplifica Murgel:

Tal onda é causada pela elevação súbita da maré no oceano, em tempos de sizígia (isto é, nas grandes marés causadas pela conjunção ou oposição da lua com o sol, ou seja, marés de “lua nova” e “lua cheia”). A elevação da maré represa os rios no estuário, fazendo com que suas águas recuem, formando uma grande corrente em sentido contrário ao seu curso normal. Havendo um estreitamento no rio, o nível da água se eleva muito repentinamente e, se houver alguma saliência no leito (os freqüentes baixios formados pela deposição de sedimentos), esse obstáculo faz a água amontoar-se bruscamente, originando a onda que subindo sempre termina por rebentar fragorosamente, como pode ser observado no Guamá, o grande rio que circula Belém (MURGEL, 1930, p. 59).

A partir das práticas cotidianas de observação da Lua, os índios Tupi-Guarani, notavam modificações no comportamento dos animais, de acordo com a luminosidade apresentada no ambiente, quanto mais brilhante estivesse a Lua, mais agitados ficavam os animais, fator este que, proporcionava melhores condições para caçar.

Essa agitação animal ocorre entre os períodos de Lua nova e de Lua cheia. Outro fator importante, demonstrado pelos índios Guaranis, sendo um conhecimento que pode ser aproveitado no combate as pragas, como exemplo, o mosquito da dengue (Aedes Aegypti), se dá, devido a sabedoria de que a melhor época para combate-los é durante a Lua cheia, já que, os insetos ficam mais agitados por razão da maior luminosidade. A incidência do mosquito da dengue (Aedes Aegypti), também aumenta durante o período de Lua cheia, sendo este o motivo de a dedetização ser mais eficaz neste período (AFONSO, 2014).

As aldeias litorâneas Guarani, da mesma forma como os Tupinambá, relacionam as fases da Lua diretamente com as estações do ano e com as marés. De acordo com os índios, a melhor fase para pescar o camarão é entre os meses de Fevereiro e Abril, quando o nível das marés está elevado, ocorrendo durante o período da Lua cheia. Normalmente ao sair para pescarem, os índios já sabem quais espécies de peixes vão conseguir pegar em abundância, isso acontece, porque os índios conhecem muito bem as fases da Lua e a época do ano certa para a pesca, alem de ter um conhecimento muito grande sobre a fauna do meio-ambiente onde vivem, já que são exímios observadores da natureza (AFONSO, 2006). 

Segundo D’Abbdevile os índios Tupinambá distinguiam dois momentos das cheias das marés, que aconteciam sempre na Lua nova e na Lua cheia. O conhecimento das marés, pelos índios, se dá anteriormente ao desenvolvimento deste conhecimento pelos europeus, uma das explicações que podem ser dadas para este fato, diz respeito a localização do território brasileiro, que está em quase toda sua extensão, entre os trópicos, onde, por sua vez, a observação e a relação das marés com as fases lunares é mais facilmente realizada. (AFONSO, 2006).

A cultura indígena, de forma geral, baseia suas crenças e explicações dos fenômenos naturais, a partir dos mitos, contados e recontados por seus antepassados, desta forma, para as explicações das características da Lua, assim como das fases lunares, não acontece diferente. Os índios Tupi-Guarani, através de suas observações da Lua e dos efeitos naturais que ocorriam ao fim de suas fases, criaram um mito, para descrever e explicar o porque, das características físicas da Lua e suas influências, fazendo isto, a partir de suas crenças nos astros como deuses.

LUA, IRMÃO DO SOL, entrava tateando no escuro, no quarto da irmã de seu pai, com a intenção de fazer amor com ela. Para saber quem a importunava todas as noites, sua tia lambuzou os dedos com resina e de noite, enquanto Lua a procurava, passou a mão em sua face. No dia seguinte, bem cedo, Lua foi lavar a face para retirar a resina. No entanto, a substância não saiu, e ele ficou mais sujo ainda. Por esse motivo, Lua tem sempre a face manchada. Desde então, a lua nova lava seu rosto, fazendo chover para tentar tirar as manchas de resina, que ficam mais visíveis quando ela se torna cheia. Essa fábula ensina aosTupis-Guarani que não devem cometer incesto. (AFONSO, 2006 p.52).

Para muitas nações indígenas, a chegada do ano novo era durante o solstício de inverno (~21 de junho), tal como o wiñol Tripanto ou We Tripanto dos Mapuche do Chile ou os habitantes da aldeia Pokanoket, da nação indígena norte americana Wampanoag, que também via o ano de 28 dias e 13 luas nas costas da tartaruga, de acordo com o livro  "Thirteen Moons on Turtle's Back de Joseph Bruchac.

Constelações Tupinambá 

Agora que já sabe como a maioria das nações indígenas dividiam o ano no calendário da tartaruga, conheça também algumas constelações indígenas ancestrais. 

Dois anos antes de Jeronimo chegar em Jericoacoara, no ano de 1612, o missionário capuchinho francês Claude d’Abbeville passou quatro meses com os Tupinambá do Maranhão, perto da Linha do Equador. No seu livro “Histoire de la Mission de Pères Capucins en l’Isle de Maragnan et terres circonvoisins”, publicado em Paris, em 1614, considerado uma das mais importantes fontes da etnografia dos Tupi, ele registrou o nome de cerca de 30 estrelas (îasytatá em Tupi-Antigo) e constelações conhecidas pelos índios da ilha. Infelizmente, foram devidamente associadas à aquelas que conhecemos.

As observações do céu que realizamos com índios de todas as regiões do Brasil permitiram localizar a maioria das constelações Tupinambá, apenas relatadas por d`Abbeville e de diversas outras etnias indígenas brasileiras.

Um dos motivos que nos incentivou a realizar este trabalho de resgate da astronomia indígena brasileira foi verificar que o sistema astronômico dos extintos Tupinambá do Maranhão, descrito por d’Abbeville, é muito semelhante ao utilizado, atualmente, pelos Guarani do Sul do Brasil, embora separados pelas línguas (Tupi e Guarani), pelo espaço (mais de 2.500 km, em linha reta) e pelo tempo (quase 400 anos). Verificamos, também, que algumas das constelações dos índios brasileiros, utilizadas no cotidiano, são as mesmas de outros índios da América do Sul e dos aborígines australianos.

Os índios brasileiros davam maior importância às constelações localizadas na Via Láctea, que podiam ser constituídas de estrelas individuais e de nebulosas, principalmente as escuras. A Via Láctea é chamada de Caminho da Anta (Tapi’i rapé, em guarani) pela maioria das etnias dos índios brasileiros, devido principalmente às constelações representando uma Anta (Tapi’i, em guarani) que nela se localizam.


A CONSTELAÇÃO DA EMA

A CONSTELAÇÃO TUPINAMBÁ DA EMA - YANDUTIN

Em relação à constelação da Ema, d’Abbeville relatou: “Os Tupinambá conhecem uma constelação denominada Iandutim, ou Avestruz Branca, formada de estrelas muito grandes e brilhantes, algumas das quais

representam um bico. Dizem os maranhenses que ela procura devorar duas outras estrelas que lhes estão juntas e às quais denominam uirá-upiá”. Ele chamou de Avestruz Branca a constelação da Ema, no entanto, a avestruz (Struthio Camelus Australis) não é uma ave brasileira. A ema parece com a avestruz, mas é menor e de família diferente.

Na segunda quinzena de junho, quando a Ema (Guirá Nhandu, em guarani) surge totalmente ao anoitecer, no lado leste, indica o início do inverno para os índios do sul do Brasil e o início da estação seca para os índios do norte do Brasil.

A constelação da Ema fica na região do céu limitada pelas constelações ocidentais Crux e Scorpius. Ela é formada utilizando, também, estrelas das constelações Musca, Centaurus, Triangulum Australe, Ara, Telescopium, Lupus e Circinus.

A cabeça da Ema é formada pelas estrelas que envolvem o Saco de Carvão, uma nebulosa escura que fica perto da estrela α Crucis (Acrux). O bico da Ema é formado pelas estrelas α Muscae e β Muscae. A Ema tenta devorar dois ovos de pássaro (Guirá-Rupiá, em guarani) que ficam perto de seu bico. Os ovos são as estrelas δ Muscae e γ Muscae.

As estrelas α Centauri (Rigel Kentaurus) e β Centauri estão dentro do pescoço da Ema. Elas representam dois ovos que a Ema acabou de engolir.

A parte de baixo do corpo da Ema começa a ser formada pela estrela β Trianguli Australis, passando pelas estrelas η Arae, ζ Arae e ε1 Arae e pelas estrelas ζ Scorpii, µ1 Scorpii, ε Scorpii, τ Scorpii, α Scorpii (Antares) e σ Scorpii, terminando em δ Scorpii.

Uma das pernas da Ema é formada pelas estrelas da cauda de Scorpius, começando na estrela δ Scorpii e termina nos dedos do pé representados pelas estrelas υ Scorpii (Lesath), λ Scorpii (Shaula) e SAO 209318. A outra perna começa na estrela ε1 Arae, passa pela estrela α Arae e termina nos dedos do pé formado pelas estrelas α Telescopii, ε Telescopii e ζ Telescopii.

A cauda da Ema é formada pelas estrelas δ Scorpii, β1 Scorpii (Graffias), ω1 Scorpii, ω2 Scorpii e ν Scorpii, todas da garra de Scorpius.

A parte de cima do corpo da Ema, é formada pelas estrelas δ Scorpii, π Scorpii e ρ Scorpii também da garra de Scorpius, seguida pelas estrelas χ Lupi, γ Lupi, ε Lupi, κ Lupi e ζ Lupi, terminando na estrela β Circini, onde começa o seu pescoço.

Dentro do corpo da Ema, as manchas claras e escuras da Via Láctea ajudam a visualizar a plumagem da Ema.

A constelação Scorpius, excluindo suas garras e as estrelas que estão acima de Antares, representa uma Cobra (Mboi, em Guarani) para os índios brasileiros, sendo Antares a sua cabeça. De fato, é muito mais fácil imaginar uma cobra que um escorpião nessa região do céu.

Ao Sul do Trópico de Capricórnio, a constelação ocidental Scorpius é conhecida como de inverno e perto da Linha do Equador como de seca, tendo em vista que ela pode ser observada, ao anoitecer, nessas estações. 

Essa constelação, sem as garras, representa um cobra para os índios brasileiros.


A CONSTELAÇÃO DO HOMEM VELHO

A CONSTELAÇÃO TUPINAMBA DO HOMEM VELHO - TUYAVAÉ

Em relação à constelação do Homem Velho, d’Abbeville relatou: “Tuivaé, Homem Velho, é como chamam outra constelação formada de muitas estrelas, semelhante a um homem velho pegando um bastão”.

 Na segunda quinzena de dezembro, quando o Homem Velho (Tuya, em guarani) surge totalmente ao anoitecer, no lado Leste, indica o início do verão para os índios do sul do Brasil e o início da estação chuvosa para os índios do norte do Brasil.

A constelação do Homem Velho é formada pelas constelações ocidentais Taurus e Orion.

Conta o mito que essa constelação representa um homem cuja esposa estava interessada no seu irmão. Para ficar com o cunhado, a esposa matou o marido, cortando-lhe a perna. Os deuses ficaram com pena do marido e o transformaram em uma constelação.

A constelação do Homem Velho contém três outras constelações indígenas, cujos nomes em guarani são: Eixu (as Pleiades), Tapi’i rainhykã (as Hyades, incluindo Aldebaran) e Joykexo (O Cinturão de Orion).

Eixu significa ninho de abelhas. Essa constelação marca o início de ano, quando surge pela primeira vez no lado oeste, antes do nascer do Sol (nascer helíaco das Plêiades), na primeira quinzena de junho. Segundo d’Abbeville, os Tupinambá conheciam muito bem o aglomerado estelar das Plêiades e o denominavam Eixu (Vespeiro). Quando elas apareciam afirmavam que as chuvas iam chegar, como chegavam, efetivamente, poucos dias depois. Como a constelação Eixu aparecia alguns dias antes das chuvas e desaparecia no fim para tornar a reaparecer em igual época, eles reconheciam perfeitamente o intervalo de tempo decorrido de um ano a outro.

Tapi’i rainhykã significa a queixada da anta e anunciava que as chuvas estavam chegando, para os Tupinambá. Joykexo representa uma linda mulher, símbolo da fertilidade, servindo como orientação geográfica, pois essa constelação nasce no ponto cardeal leste e se põe no ponto cardeal oeste Joykexo também representa o caminho dos mortos.

A cabeça do Homem Velho é formada pelas estrelas do aglomerado estelar Hyades em cuja direção se encontra α Tauri (Aldebaran), a estrela mais brilhante da constelação Taurus.

Acima da cabeça do Homem Velho fica o aglomerado estelar das Plêiades que representa um penacho que ele tem amarrado à sua cabeça.

O pescoço do Homem Velho começa em Aldebaran e termina na estrela ο2 Orionis, de onde partem seus braços.

Um de seus braços termina em ζ Tauri. O outro braço termina em π6 Orionis, passando por todo o escudo de Orion.

A linha reta que vai de π5 Orionis até β Orionis (Rigel), representa um bastão que o Homem Velho utiliza para se equilibrar.

A estrela γ Orionis (Bellatrix) fica na virilha do Homem Velho, sendo que a estrela vermelha α Orionis (Beltegeuse) representa o lugar em que sua perna foi cortada. O Cinturão de Órion (Três Marias) formado pelas estrelas δ Orionis (Mintaka), ε Orionis (Alnilam) e ζ Orionis (Alnitak) representa o joelho da perna sadia. A estrela κ Orionis (Saiph) representa o pé da perna sadia.

Ao Sul do Trópico de Capricórnio, a constelação ocidental Orion é conhecida como constelação de verão e perto da Linha do Equador como de chuva, tendo em vista que ela pode ser observada, ao anoitecer, nessas estações.


CONSTELAÇÃO DA ANTA DO NORTE

CONSTELAÇÃO TUPINAMBA DA ANTA DO NORTE - TAPI'I

A constelação da Anta do Norte é conhecida principalmente pelas etnias de índios brasileiros que habitam na região norte do Brasil, tendo em vista que para as etnias da região sul ela fica muito próxima da linha do horizonte. Ela fica totalmente na Via Láctea, que participa muito nas definições de seu contorno, fornecendo uma imagem impressionante dessa constelação. 

Existem outras constelações representando uma Anta (Tapi’i, em guarani) na Via Láctea, por isso chamamos essa constelação de Anta do Norte.

Segundo Afonso (2006), os indígenas brasileiros, dão maior importância, àquelas constelações quehabitam a Via Láctea, ou Tapi’i’rapé, a Via Láctea é chamada de Caminho da Anta devido, principalmente, à  constelação da Anta do Norte.

Na segunda quinzena de setembro, a Anta do Norte surge ao anoitecer, no lado Leste, indica uma estação de transição entre o frio e calor para os índios do sul do Brasil e entre a seca e a chuva para os índios do norte do Brasil.

A constelação da Anta do Norte fica na região do céu limitada pelas constelações ocidentais Cygnus (Cisne) e Cassiopeia (Cassiopéia). Ela é

formada utilizando, também, estrelas da constelação Lacerta (Lagarta), Cepheus (Cefeu) e Andromeda (Andrômeda).

A estrela α Cygni (Deneb) representa o focinho da Anta do Norte, sendo que 55 Cygni, ξ Cygni e 59 Cygni representam sua boca. O restante da cabeça é formado pelas estrelas 74 Cygni, σ Cygni, ν Cygni, 56 Cygni, 63 Cygni e π2 Cygni.

As estrelas τ Cygni e 72 Cygni representam as orelhas da Anta do Norte.

A parte de cima do pescoço começa em SAO 51904 (2 Lacertae) e a parte de baixo em ζ Cephei.

A parte de baixo do corpo da Anta do Norte começa a ser formada pela estrela ζ Cephei, passando pelas estrelas β Cassiopeiae (Caph) e α Cassiopeiae (Schedar), terminando em ζ Cassiopeiae.

As duas pernas da frente começam em ζ Cephei, sendo que uma delas termina em α Cephei (Alderamin) e a outra termina ι Cephei. As duas pernas de trás começam em β Cassiopeiae (Caph), sendo que uma delas termina em κ Cassiopeiae e a outra em δ Cassiopeiae (Ruchbah).

A cauda da Anta do Norte é representada pelas estrelas ζ Cassiopeiae e µ Cassiopeiae.

A parte de cima do corpo da Anta do Norte é formada pelas estrelas ζ Cassiopeiae, ψ Andromedae e λ Andromedae, terminando na estrela SAO 51904, onde começa o seu pescoço.


A CONSTELAÇÃO DO VEADO

A CONSTELAÇÃO TUPINAMBÁ DO VEADO - SYGÛASU


A constelação do Veado é conhecida principalmente pelas etnias de índios brasileiros que habitam na região sul do Brasil, tendo em vista que para as etnias da região norte ela fica muito próxima da linha do horizonte.

Na segunda quinzena de março, o Veado surge ao anoitecer, no lado Leste, indica uma estação de transição entre o calor e o frio para os índios do sul do Brasil e entre a chuva e a seca para os índios do norte do Brasil.

A constelação do Veado fica na região do céu limitada pelas constelações ocidentais Vela (Vela) e Crux (Cruzeiro do Sul). Ela é formada utilizando, também, estrelas da constelação Carina (Carina) e Centaurus (Centauro).

A estrela γ Velorum (Suhail Al Muhlif) representa o focinho do Veado, sendo que sua cabeça é formada pelas estrelas SAO220138, SAO 220803, λ Velorum (Alsuhail), SAO 220371 e SAO 220204.

Partindo da estrela λ Velorum até as estrelas ψ Velorum e SAO 200163, temos os dois chifres do Veado.

 A parte de cima do pescoço começa em κ Velorum e vai até SAO 220803, a parte de baixo começa em δ Velorum e vai até SAO 220138.

A parte de baixo do corpo do Veado começa a ser formada pela estrela δ Velorum, passando pelas estrelas ι Carinae (Aspidiske), SAO 250683, θ Carinae, η Crucis, ζ Crucis, α Crucis e ε Crucis, terminando em δ Crucis.

A cauda do Veado é representada pelas estrelas δ Crucis, β Crucis e γ Crucis. A parte traseira do Veado é formada por todas as estrelas da constelação Crux.

As duas pernas da frente começam em SAO 250683 e θ Carinae sendo que uma delas passa por υ Carinae, terminando em β Carinae (Miaplacidus) e a outra termina em ω Carinae. As duas pernas de trás começam em η Crucis e ζ Crucis sendo que uma delas passa por λ Muscae e ε Muscae, terminando em γ Muscae e a outra passa por α Muscae e β Muscae, terminando em δ Muscae.

A parte de cima do corpo do Veado é formada pelas estrelas γ Crucis, π Centauri e φ Velorum, terminando na estrela κ Velorum, onde começa o seu pescoço.


Referencias

Afonso -Constelações Indígenas de Germano Afonso - Germano Bruno Afonso (UFPR)

BRANCO, Samuel Murgel. O desafio amazônico. 2ª edição. Editora Moderna. São Paulo: Brasil, 1930.

Bruchac - Thirteen Moons on Turtle's Back de Joseph Bruchac

FILHO, Alexandre Toccoli; /OLIVEIRA, Matheus Carvalho de; /RIBEIRO, Rafael Bicudo; /SANTOS, Rodrigo Silva

Malaquias dos. Cosmologia indígena brasileira: Tupinambás e Guaranis. Disponível em:

http://disciplinas.stoa.usp.br/pluginfile.php/246176/mod_resource/content/1/Cosmologia%20ind%C3%ADgena%20

brasileira%20-%20Tupinamb%C3%A1s%20e%20Guaranis.pdf. Acesso em: 2 Abr.2016.

LEVI-STRAUSS, Claude. O cru e o cozido. Editora Cosac & Naify. São Paulo: Brasiliense, 1991.

ROSENFIELD, Rogério. A cosmologia. Disponível em:

http://www.sbfisica.org.br/fne/Vol6/Num1/cosmologia.pdf. Acesso em: 5 Mai.2016

MARQUES, C. T dos S; / GAMA, E. V. S; / CARVALHO, A. J. A; / SILVA, F; / FRIAS., M. T. RODRIGUES,

L. Relato sobre a Influência da Lua na Agricultura. Vitória: 1998.

D’ABBEVILE, Claude. História da missão dos padres capuchinhos na ilha do maranhão e suas

circumvisinhanças. Paris, 1614.

AFONSO, G. B. As constelações indígenas brasileiras. Observatórios Virtuais, USP, 2004.

AFONSO, G. B. Mitos e Estações no céu Tupi-Guarani. Scientific American Brasil, 2006. Disponível

em: http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/mitos_e_estacees_no_ceu_tupi-guarani.html

LUCIANO, Gersen dos Santos. O índio brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos

indígenas no Brasil de hoje. Coleção educação para todos. Brasília: MEC/Secad; LACED/Museu

Nacional.

FABIAN, Stephen M. Space-Time of the Bororó of Brazil. Gainesville: University Press of Florida, 1992.



quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Conversação em Tupi Antigo - Aula 2


 

Nessa segunda lição, Pindobuçu que mora na periferia de Carapicuíba resolve acompanhar Rembémumbú ao encontro dos amigos Potiguara, que marcaram um encontro no Espaço Cultural Inhapuambuçu, no centro histórico de São Paulo de Piratininga. As instalações e edifícios foram construídos no lugar da famosa aldeia de Tibiriçá a 600 anos atrás e hoje abriga o CCCRT (Centro da Cultura, Ciência e Religião Tupiniquim), onde natureza e ciência convivem lado a lado.

Assista ao vídeo

Para uma perfeita compreensão do que é Sumietama, e da proposta de ensino do Tupi-Antrigo através da conversação, visite a primeira lição nesse blog e no YouTube.

Texto Luiz Pagano
Tradução Professor Farias

Para uma perfeita compreensão do que é Sumietama, e da proposta de ensino do Tupi-Antrigo através da conversação, visite a primeira lição nesse blog e no YouTube.

Transcrição e Tradução

1-Pindobuçu – Venha Rembémumbú tem uma estação de trem* logo ali na esquina.
Eîori, Rembémumbú gûé. Aîpó rapé rupi ogûerekó tatánhandarusuba'e* pytasaba. 
(lit. Venha, ó Rembémumbú. Aquele caminho por ele tem "o que é  corredor grande de fogo = trem" lugar de ficar =estação )

*Como no idioma Tupi-Antigo não exisitia a palavra trem* o professor Faias, resolveu usar um recurso adotado na lingua Chinesa (que ele tambêm domina) de compor palavras conhecidas para descrever elementos e inventos da moderna civilização. No caso do TREM, ele usou tatánhandarusuba'e, cuja tradução literal é ‘corredor grande de fogo’, e para a palavra ESTAÇÃO usou pytasaba, literalmente o ‘lugar de se ficar’.

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2- Rembémumbú – Você sabe onde está indo?
Rembémumbú – Ereikuab-y-pe mamõ nde soagûa-me? 
(lit. Você sabe onde a sua ida futura para?)

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3-Pindobuçu – Para ser honesto, me atrapalho um pouco na cidade grande.
Pindobuçu – Anheté, ndaikuabi xe tabusu pupé gûatasaba. 
(lit. Verdadeiramente, eu não sei eu aldeia grande caminhada)

Rembémumbú aborda alguns passantes para pedir informações.
Rembémumbú amõ gûatasara supé oîporandub pekuguapaba resé. 
(lit. Rembémumbú alguns andarilhos para, ele os pergunta indicação do caminho sobre)

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4- Rembémumbú – Com licença, Pode nos dar uma informação?
Rembémumbú – Ereikobékatu-pe? T'ere nhe'eng ixebe poranduba amõ mba'e resé. 
(lit. Você vive bem? Que você fale-me informações alguma coisa sobre).

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5- Por favor, como podemos fazer para chegar no CCCRT?
Oré soaguama CCCRT pe resé, marã-pe orogûatá akûeipe? 
(lit, Nossa ida futura CCCRT para -sobre-, como nós caminhamos lá)

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6- Passante (gûatasara) – Siga enfrente até aquela placa**, vire a primeira a esquerda e logo depois verão a estação Jaguaré do trem Iguatemi.

Gûatasara -  Egûatá aîpó kûatiarusu** koty, nã eîkobo erobak oîepé asu koty, a'eriré eresepîak Jaguaré tatánhandarusuba'e pytasaba Iguatemi seryba'e. 

(lit. Caminhe aquele escrito grande em direção, assim você estando vire um lado esquerdo em direção, depois disso você ver Jaguaré o que é estaçao de trem Jaguaré, Iguatemi chamado)

**Tal como fez com trem, o Professor Farias traduziu placa como kûatiarusu “escrito grande”.

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7-Pindobuçu – Muito obrigado, senhora! 
Aûiébeté, kunhã gué!
(lit. Já está bem, ó mulher!)

Não falei? Era só virar a direita ali na frente!
Ndae'i umã-pe? T'îandé kûab îandé ekatuaba aipó rapé sobaké ae. 
(lit. Eu não disse já? Que nós passemos o nosso lado direito aquele caminho frente dele é mesmo)

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8- Rembémumbú – Haja paciência!!
Ta sosãmbyramo ixé ne!!! 
(lit. Que eu seja como aquele que está na condição de paciente)

No trem  
tatánhandarusuba'e pupé. 

9- Rembémumbú – Meu Deus! Que coisa linda! 
Tó! Ikó mba'e i porangatueté nhë.
(lit. Ó, esta coisa e muito bonita verdadeiramente!

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10-Pindobuçu – São as fazendas de mandioca.
Pindobuçu – Mandiomityma*** ae. 
(lit. Mandioca plantações elas são.)

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11- Rembémumbú – E aquilo lá encima, o que é?
Aete-pe aîpó mba'e ybaté-pe, marãpipó?
(lit. E aquelas coisas no alto, como são por acaso?)

12-Pindobuçu – São Araras Azuis.
Pindobuçu – Araroby**** a'e. 
(lit. Araras azuis elas são) 

13- Rembémumbú – Como a cidade grande é maravilhosa!
Tabusu i porangatu nhë.
(lit. A aldeia grande é muito bonita de fato!)

Pindobuçu – Chegamos!! 
Îandé sykaba iké nhë.
(lit. Nossa chegada é aqui!!)

Notas dos Professores

Como Sumetama é uma civilização inventada a partir da extrapolação do que teria sido a evolução de aldeias Tupiniquins, Tupinambá, etc., resolvemos adotar e criar alguns conceitos não existentes nas época antigas, mas completamente baseado e orientado para o perfeito uso do Tupi Antigo, evitando ao máximo o uso neologismos. 

A cidade chama-se São Paulo de Piratininga (atual São Paulo) porque nessa cidade utópica fictícia os Tupiniquins resolveram viver em paz com os Portugueses permitindo que cultuassem rua religião (cristã) desde que não interferisse no modo de vida Tupinambá. Trens e elementos de nossa tecnologia atual se desenvolveram muito ao se juntar com o conhecimento ancestral indígena, numa civilização simbiótica (não parasitária e colonialista que nosso curso histórico seguiu no Brasil) .

Algumas tecnologias fictícias que surgem em nossa obra de ficção desse próspero casamrnto de culturas são as chamadas Araroby**** Araras Azuis, balões meteorológicos que tem a função de limpar o ar de poluentes e reaproveitar substâncias químicas em sintetizadores, e as Mandiomityma*** ,  fazendas de mandioca, que além de produzirem a iguaria, tem sistemas bioeletricos que aproveitam a energia solar das folhas e as transforma em energia elétrica.

Numerais

1oîepé
2mokõî
3mosapyr
4 irundyk
5Xe pó (minha mão)
6Xe pó oîepé (minha mão e um)
7Xe pó mokõî (minha mão e dois)
8Xe pó mosapyr (minha mão e três)
9Xe pó irundyk (minha mão e quatro)
10Mokõî pó (duas mãos)
Os numerais ordinais são:
1º-ypy
2º-mokõîa
3-mosapyra
4-irundyka

Notas Gramaticais, 

Os números cardinais podem anteceder ou vir após o nome que se referem:

mosapyr îakaré a-îuká ou îakaré mosapyr a-îuká (matei três jacarés)

Os numerais ordinais sempre vêmn após o nome a que se referem:

Tupã o-î-monhang abá ypy (Deus fez primeiro o homem)

Em tupi antigo não existe numeração acima de quatro,para expressar unidades acima utilizam-se alguns recursos como xe pó (minhas mãos) para cinco e etc., a numeração do Tupi Antigo é a seguinte:

1-oîepé
2-mokõî
3-mosapyr
4-irundyk

Os numerais ordinais são:

1º-ypy
2º-mokõîa
3-mosapyra
4-irundyka

Notas Gramaticais: Os números cardinais podem anteceder ou vir após o nome que se referem:

mosapyr îakaré a-îuká ou îakaré mosapyr a-îuká (matei três jacarés)

Os numerais ordinais sempre vêmn após o nome a que se referem:

Tupã o-î-monhang abá ypy (Deus fez primeiro o homem)


As indicações básicas de direção são:
Em direção ao lado direito ( ikatuaba koty);
Em direção ao lado esqurdo ( asu koty);

Referências

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, ...

Barbosa, Pe. A. Lemos,
Pequeno vocabulário Português-Tupi - 1970
Título: Pequeno vocabulário Português-Tupi-Rio de Janeiro: Livraria São José

Barbosa, Pe. A. Lemos,
Curso de Tupi Antigo - Livraria São José, Rio de Janeiro.
Luiz Caldas Tibiriçá - Dicionário tupi português - Traço Editora, 1984

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Conversação em Tupi Antigo - Aula 1

Uma das boas forma de aprender um idioma é a pratica diária, más infelizmente, salvo raras exceções, não temos esse tipo de oportunidade - nesse sentido, criamos essa historinha em quadrinhos com textos em o Tupi Antigo.

SUMIETAMA

SUMIETAMA é uma civilização muito mais avançada que a nossa, formada por centenas de nações indígenas, é um universo escondido dentro do grande Brasil, fundada milênios antes da chegada dos colonizadores portugueses pelo lendário Sumié.

Assista ao video 


Em SUMIETAMA todo conhecimento ancestral e das tecnologias do mundo atual se misturam, a população vive em perfeita harmonia com a natureza, recicla 100% dos seu lixo, não polui águas nem o ar, e usam o Tupi-Antigo como idioma comum para os mais de 300 povos ancestrais brasileiros.

Acompanhe as aventuras da família Ybyrapytanga em SUMIETAMA enquanto aprende o básico de conversação em Tupi-Antigo.



Aula de conversação I – a chegada de Rembémumbu - Texto em Tupi por Romildo Araújo (clique aqui para conhecer mais o trabalho do Professor Romildo em Tupi Antigo)

Transcrição e Tradução

1-Pindobuçu – Type chegou, e ele vem acompanhado de uma amigo.
Té! Type our umã! A’e our tapixara irunamo. 

2-Potyra – Abra a porta para ele, meu filho.
Xe membyr îu! Esokendabok îandé roka t’our a’e.

3-Pindobuçu – vieste de Reritiba, meu primo?
Ereîúrype Rerityba suí, xe rybyra gûé?

4-Type – Sim eu vim. Deixe eu apresentá-lo, este é meu amigo Rembémumbú.
Pá! Aîur, xe ryky’yra.  T’arokûab, ikó xe raûsupara Rembemumbú.

5-[Olá!] Muito prazer, meu nome é Rembemumbú, sou da etnia Aimoré.
Eîkobé! Xe roryb nde kuapa, Xe rera Rembémumbu, xé anama é Aimoré.

6-Pindobuçu - Logo deduzi pelo botoque em seus lábios - entre por favor.
Aîkugûab aûnhenhẽ nde tembé botoque repîaka. - T’ereîké, xe irũ

Na cozinha (Tembi’u moîypá’pe)

7-Potyra  – Sejam bem vindos em nossa casa.
Ta peîkókatu oré róka pupé!

8-Type – Estou feliz por estar aqui. A senhora está preparando maniçoba?
Xe roryb iké gûitekóbo! Endé tembi’u manisoba ereîapó eîkóbo serã?

9-Potyra – Sim, e esta noite eu te convido para jantar.
Eẽ, kó Pytũneme, ixé oroso’o t’îakaru ne .  

10- Type – Me desculpe, essa noite eu não posso, tenho um compromisso na casa de amigos Potiguaras.
Nde nhyrõ xébe. Kó pytũneme nda’ekatuî. Aîkó temone xe rapixara Potiguara roka pupé.

11-Pindobusu – que pena, a maniçoba de minha mãe é a melhor de Piratininga
Erĩ, Tembi’u manisoba xe sy rembiapó sékatueté Pirarininga suíxûara suí.

12-Type – o cheiro está muito bom!!
Syapûangatu nhẽ!

Pindobuçú – não tem problema, da próxima vez que vier aqui prepararemos de novo a maniçoba para comermos.
I marane’ym! Nde rúsagûãme abé, t’îaîapó abé Manisoba t’îa’u ne.

——

...GOSTOU? ...não perca tempo, assista a segunda aula clicando aqui

Vocabulário

EikobéOlá
EmbéBeiço, lábio
Embi'uComida, bebida
Gûitekóbo Correspondente ao nosso “estar”, no gerúndio
irunamoAcompanhado de
Ka'uBeber Cauim
Maranestar aflito, enfermo, ter problema
MenbyraFilho
Nhyrõ(xe) Perdoar, ser pacífico
Sim
PytũnaNoite
RybyraPrimo
Tapixara, rapixaraAmigo, semelhante, o próximo


Conjugação do verbo Karú - Comer 
(o hífen no morfema a frente do verbo foi colocado por questões didáticas, não há necessidade de uso na escrita) 


ixé a-karúEu como
endé ere-karúTu comes
a'e o-karúEle/ela come
oré oró-karúNós comemos (exclusivo)
îandé îa-karúNós comemos (inclusivo)
peẽ pe-karúVós comestes
a'e o-karúEles/elas comem
Notas dos Professores

Como Sumetama é uma civilização inventada a partir da estrapolação do que teria sido a evolução de aldeias Tupiniquins, Tupinambás, etc., resolvemos adotar e criar alguns conceitos não existentes nas época antigas, mas completamente baseado e orientado para o perfeito uso do Tupi Antigo, evitando ao máximo o uso neologismos. As palavras inventadas serão devidamente informadas no decorrer das aulas.


a - Na linha 2 
Potyra diz “Abra a porta para ele, meu filho” nos ilustrando essa dificuldade, posto que, não existiam portas nas casas nas aldeias pre-colonialistas.

O professor Romildo usou “Xe membyr îu! Esokendabok îandé roka t’our a’e” – onde Oka (r-, s-) significa casa e porta é escrita como Okena (r-, s-).

Em textos bíblicos traduzidos para o Tupi Antigo vemos a seguinte passagem “que disse a mulher que guardava a porta de São Pedro?” – traduzido da seguinte forma “Marã e’ipe kunhã okena rerekoara São Pedro supé? (A.r., Cat 55v)

Okendab – (s) (v, tr) – fechar (porta, janela, carta), encerrar (pessoa, etc.:):

Osokendab a’e karamemûã itagâsu pupé.
Fecharam aquele tumulo com uma pedra grande. (A.r., Cat 64v);

Itá karamemûã pupé i nongi, sokendapa.
Dentro de uma sepultura de pedra puseram-no, fechando-a (Benttendorff, Compêndio, 50);

E por fim Okendaba (Okendapaba) é o nome dado ao instrumento de madeira usado para fechar protas, prendendo-a ao batente.

Com isso temos:

Okendabok – entrada (de casa, de casa, de caixa, etc); porta, janela (VLB, I, 18);

Okendabok (s) (etim.  – arrancar o tampo) (v. Tr.) – abrir (p. Ex., a porta, a janela, o tampo de):Esokendabok nde roka. – Abra a porta de tua casa (VBB. I, 18);

Dessa forma ainda podemos dizer:

Fechar a porta
Okenda-pab.

Ou

Fechar a porta
Okendab-a.

Abrir a porta
Okendab-‘ok.

A-sokendab xe roka
Fechei a porta da minha casa.

A saudação Lacrimosa

b- Na linha 3 

3-Pindobuçu diz “vieste de Reritiba, meu primo?”
Ereîúrype Rerityba suí, xe rybyra gûé?

Um dos aspectos mais interessantes dos indigenas de fala Tupi do Brasil quinhentista é a maneira pela qual recebiam seus hospedes e forasteiros. Conforme relata o Padre Fernão Cardim:

“Entrando-lhe algum hóspede pela casa, a honra e agasalho que lhe  fazem é chorarem-no. Entretanto, pois, logo o hóspede na casa, o assentam na rede e, depois  de assentado, sem lhe falarem, a mulher e filhas e mais amigas se assentam ao redor, com os cabelos baixos, tocando com a mão na mesma pessoa, e começam a chorar todas em altas vozes, com grande, com grande abundância de lágrimas e ali contam em prosas trovadas quantas coisas tem acontecido desde que se não viram até aquela hora e outras muitas que imaginam e trabalhos que o hóspede padeceu pelo caminho e tudo o mais que pode provocar a lástima e o choro. O hóspede, nesse tempo, não fala palavra, mas depois de chorarem por bom espaço de tempo, limpam as lágrimas e ficam tão quietas, modestas, serenas e alegres que parece (que) nunca choraram e logo saúdam e dão o seu Ereîupe , e lhe  trazem de comer etc., e depois dessas cerimônias contam os hóspedes ao que vêm. Também os homens choram uns aos outros, mas é em casos alguns graves, como mortes, desastres de guerra, etc. Tem por grande honra agasalharem a todos e darem-lho todo o necessário para sua sustentação e algumas peças como arcos, flechas, pássaros, penas e outras coisas, conforme a sua pobreza, sem algum gênero de estipêndio”.
Tratados da Terra e da Gente do Brasil, p. 108
Saudação Lacrimosa - Arte Tupi-Pop por Luiz Pagano

Obviamente que em Sumietama, uma civilização mais avançada, esse ritual antigo já não é mais performado, no entanto, opta-se por adotar o cumprimento tradicional, que se repete por gerações:

O anfitrião diz:

-Ere îurype?
-Você veio?

E o viajante responde:

-Pa, a îur.
-Sim, eu vim.

Essa pergunta e resposta se repete por três a quatro vezes enquanto memorizam bons momentos de suas relações em comum, até que seus olhos se encham de lagrima.

Ai final usa-se gûé, com o significado de ‘meu querido’ e atualmente pode até ser entendido pelas novas gerações como ‘meu brother’.

Mamõ-pe ere-îkó, xe irũ gûé?
Onde mora você, meu querido companheiro?

Importante que se diga que para mulher usamos iú ou ió

Xe’ma enduar nde sy pupé, Potyr ió
Eu me lembro de sua mãe, querida Potyra

Cumprimentos

Bom dia!Tiá nde ko'ema!
Boa tarde!Tiá nde karuka!
Boa noite!Tiá nde pytúna!
Saúde, tin-tin, cheers!T'reikokatu!
Básicos da Conversação

Com licençande xe repiaki
Por favorio kuereke katuramo
Me desculpende nhyrõ xebé.
Obrigadoaikûguab
Sinto muitoA-î-moasy-katu
Passas bem?Ere-îkobé-pe?
Você está bem?Ere-îkó-katú-pe?
Eu estou bem.A-îkó-katu.
Muito bemAûîébeté
De nadaAîkuab [endé xe pytybõ] =eu reconheço (que tu me ajudou)

Básicos da despedida/outros


Durma bem!T'ere-ké-katu!
Tchau! virei aqui de novoNe'ĩ, a-îur ikó!
Tchau, vou embora!Ne'ĩ, a-só ikó!
Durmam bem!Ta pe-ké-katu!
Vamos nós!T'îa-só-ne!
Fico feliz por você!Xe r-oryb endé r-esé!
Parabéns! Agiste bem!Ere-îkó-katu-eté
Complementos


Verdade!Supindûara
Mentira!Mo'ema
Falso!A'uba
Obrigado!Aûîé, aûîébeté, aîkugûab.
De nada!Aûîé.
Seja Bem vindo!T'ereîukatu
TchauAnheté (até mais)

REFERÊNCIAS

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
N24d

Navarro, Eduardo de Almeida
Dicionário de tupi antigo : a língua indígena clássica do Brasil / Eduardo de Almeida Navarro ; prefácio Ariano Suassuna; [ilustrações Célio Cardoso]. - 1. ed. - São Paulo : Global, 2013. il.

Vocabulário português-tupi e dicionário tupi-português, Tupinismo no português do Brasil, Etimologia de topônimos e e antropônimos de origem tupi
ISBN 978-85-260-1933-1 1.

Língua tupi-guarani - Dicionários - Português. 2. Língua portuguesa - Dicionários - Tupi. I. Suassuna, Ariano, 1927- II. Título.
13-02933
CDD: 498.3829
CDU: 811.87(038)


quinta-feira, 16 de julho de 2020

Monumento às Bandeiras – o mais importante monumento de São Paulo é pouco conhecido pelos Paulistanos

Monumento às Bandeiras com 32 figuras, 
e não 37 como relatado em muitos outras referencias (inclusive a Wikipedia e o Site da Prefeitura de São Paulo

Certa vez perguntei a um amigo de infância quantas eram as figuras que empurravam e puxavam a canoa de monções no Monumentos às Bandeiras de Victor Brecheret, monumento bastante conhecido dos paulistanos em frente ao Parque do Ibirapuera. Ele então pesquisou na enciclopédia de sua mãe (na época não existia o Google) e a resposta foi 37 figuras.

Achei muito estranho pois tenho uma boa noção de conjuntos e o numero me pareceu um pouco alto. Para tirar a duvida fomos até o local e contamos um a um.

Para minha surpresa a enciclopédia estava errada (assim como diversos artigos que vejo na internet, inclusive no artigo da Wikipédia) e eu estava certo. Eram 30 entre homens mulheres e crianças e mais dois cavalos, totalizando 32 figuras.
Monumento às Bandeiras - Rosto da Figura de número 25

Nos perguntamos: -“como a enciclopédia podia estar errada num assunto tão importante para o paulistano?”.

A resposta pode estar no Memorial Descritivo do projeto para o Monumento às Bandeiras publicado no Jornal Correio Paulistano no dia 28 de julho de 1920.
Monumento às Bandeiras - No primeiro bloco vem os cavaleiros, no segundo as etnias brasileiras 

“O grupo monumental que é a coluna dorsal do monumento, foi movido de maneira a sugerir uma ‘entrada’. A grande massa processional , guiada pelos ‘Gênios’ – os Paes Lemes, os Antonio Pires, os Borba Gatos – avança para o sertão desconhecido. Os Guiadores, a cavalo – símbolo da força e do comando -, são seres titânicos, dignas expressões viris dos sertanistas de São Paulo.
Monumento às Bandeiras - Nesta seqüência um homem da de beber ao índio e uma mulher carrega um bebe no colo
No centro, uma Vitória espalma as asas que cobrem piedosamente os ‘Sacrificados’, isto é, aqueles sertanistas que tombaram nas ciladas da selva. (..) Saindo da terra pisada pelos bandeirantes, serpeiam em grupos laterais as ‘Insidias’. São de um lado, as ‘Insidias da Ilusão’, mulheres enigmáticas e serpentes, belas como tudo que promete a mente, a simbolizar as Esmeraldas de Paes leme, as Minas de Prata de Roberto Dias, o mundo lendário das Amazonas de Orellana. (...) Do outro lado, as ‘Insidias do Sertão’ exprimem as Lesirias e as Febres, as Emboscadas e as Feras, a Fome e a Morte. Na parte posterior, a Ânfora que conterá a água do Rio Tietê, sagrado pela gloria das ‘monçoes’. Sugeriu-nos essa idéia a conferencia do Sr. Affonso de Taunay”.
A figura de numero 13 é o unico que puxa a embarcação - Uma lenda popular diz que o monumento do 'Deixa que eu empurro' ou 'empurra-empurra' nunca sai do lugar posto que as cordas estão frouxas, logo ninguém está fazendo força.
Reparem que neste memorial escrito pelo próprio escultor ele menciona ‘Vitorias Aladas’, e também acho que alguém deveria carregar a ânfora, estas não estão presentes no nosso atual monumento.
As figuras escondidas de numero 29 e 30 ( a de numero 29 é o auto-retrato de Victor Brecheret)

Considerada a maior escultura equestre do mundo com seus 50 m de comprimento, 16 m de largura e 10 m de altura, teve seu projeto inicial em 1920, encomendada para a celebração do bicentenário da independência, em 1922. 
A grande massa processional , guiada pelos ‘Gênios’ – os Paes Lemes,
os Antonio Pires, os Borba Gatos – avança para o sertão desconhecido.

O então Presidente do Estado, cargo que equivale hoje ao de governador, manifestou o desejo de realizar um monumento aos bandeirantes. A comissão encarregada de executar o monumento, a ser custeado pela administração pública, foi composta por Monteiro Lobato, Menotti Del Picchia e Oswald de Andrade, que escolheram o projeto de Brecheret.

Ainda em julho de 1920, o projeto foi apresentado publicamente na Casa Byington, e agradou muito a Washington Luís. 

A colônia portuguesa, nesse meio tempo, queria oferecer um monumento à cidade, também com o tema de bandeirantes, eles apresentaram uma proposta do escultor português Teixeira Lopes.

Menotti Del Picchia detestou a idéia de ter essa obra feita por estrangeiros “...o monumento brasileiro deve ser integralmente brasileiro”, repudiava a idéia de “a alma e a técnica estranhas se fixarem no bronze que imortalizaria as glórias de nossa raça”. Em função do conflito o Presidente do Estado decidiu adiar o projeto e a maquete de Brecheret foi parar na Pinacoteca do Estado.
Maquete original do Monumento às Bandeiras de Brecheret com 37 figuras (1920), inclusive as 'Vitorias aladas' - Muita alteração foi feita até sua inauguração em 1953 com apenas 32 figuras.

A retomada da escultura só ocorreu próximo às comemorações do IV Centenário da Cidade. Primeiramente, Brecheret fez a obra na escala de 1x1 m, aumentando-a depois para o tamanho atual. Foi feita uma primeira escultura em gesso em tamanho natural, a partir da qual todas as figuras foram novamente esculpidas, desta vez em pedra Mauá – as pedras eram trazidas da cidade paulista de mesmo nome – por artesãos denominados “canteiros”, que copiavam fielmente o modelo em gesso feito por Brecheret.

O monumento foi feito em três partes: os batedores a cavalo à frente do grupo, o grupo humano ao centro e a barca ao final.

O projeto inicial teve diversas alterações e em1949, Brecheret resolveu alterar a base do monumento. Em vez de escadarias, optou por uma base mais simples, com as laterais em plano inclinado, quase vertical. Em 1951, a Oficina Incerpi começou a montar os blocos de granito, já esculpidos, no Ibirapuera, como num grande quebra-cabeças, sendo que o efeito final deveria dar a impressão de um único bloco de rocha, como previa Brecheret. O concreto foi usado no enchimento da canoa, para dar mais rigidez ao conjunto.
o ‘Sacrificado’ figura de numero 23,  é o sertanista que tombou nas ciladas da selva.
O único personagem histórico identificado é o próprio Victor Brecheret. A quarta figura à direita do monumento, no bloco imediatamente seguinte ao dos cavaleiros, traz a seguinte inscrição no seu ombro direito: “Auto-retrato do escultor Victor Brecheret 02-10-1937”.

Previsto para ser inaugurado em 25 de janeiro de 1954, foi entregue um ano antes. Brecheret estava doente e pediu ao governador Lucas Nogueira Garcez, apressasse a entrega para o dia 25 de janeiro de 1953.
Temendo que as outras 7 figuras estivessem escondidas, procuramos muito e só achamos um escondido (numero 22) rapaz que carrega o desmaiado.    

Símbolo da cidade de São Paulo, a obra-prima de Brecheret é praticamente uma síntese de sua trajetória artística. Demorou 33 anos para ser construída e revelou influência de seus estudos anatômicos, que valorizam o corpo humano, no estilo art decó combinado com o luxo do estilo marajoara-indígena.

As “bandeiras”, tiveram grande importância para a colonização do Estado de São Paulo e do interior do Brasil nos séculos XVI, XVII e XVIII. 

Cada uma das figuras tem cerca de 5 m de altura e retrata mistura étnica brasileira, com a presença de bandeirantes brancos, índios e negros escravos, e mamelucos.
Se o numero 13 é o único que puxa, o numero 28 é o único que empurra.

Os cavaleiros da escultura estão direcionados para o Pico do Jaraguá, rumo ao interior do Estado dos bandeirantes, sempre à procura de pedras preciosas, mais precisamente esmeraldas. Abaixo deles, na base de pedra da obra há um mapa, em que são mostrados os caminhos dos bandeirantes por todo o Brasil. Ele foi elaborado pelo historiador Afonso d’Escragnolle Taunay (1876-1958), autor de História geral das bandeiras paulistas (1924/50), grandioso levantamento de fatos que auxiliam na compreensão da história do Estado de São Paulo. 

Nas laterais do monumento, há inscrições enaltecendo a obra. O poeta, ensaísta e crítico literário Guilherme de Almeida (1890-1969), chamado de “príncipe dos poetas brasileiros”, declarou: “Brandiram achas e empurraram quilhas, vergando a vertical de Tordesilhas”.

Armas antigas semelhantes a um machão (“achas”) é vista na mão de uma das figuras. Empurraram quilhas de embarcações para alcançar pontos cada vez mais longínquos, ultrapassando a barreira imposta pelo Tratado de Tordesilhas firmado entre Portugal e Espanha em 1494, que delimitava a posse das terras na América após a primeira viagem de Colombo.
Foi adicionado concreto para unir as estatuas feitas de pedra 'Maua'

Os bandeirantes, se embrenharam pela mata e chegaram a locais antes não pisados pelo homem branco, fundando cidades e ampliando as fronteiras brasileiras.

Posteriores negociações entre os rei luso D. João III e os monarcas espanhóis Fernando e Isabel deslocaram a linha inicial e asseguraram a expansão do Brasil para alem da demarcação. 

A outra inscrição na lateral do monumento (“Glória aos heróis que trocaram o nosso destino na geografia do mundo livre./ Sem eles, o Brasil não seria grande como é”) é do historiador, ensaísta e poeta brasileiro Cassiano Ricardo (1895-1974). Modernista, filiado ao Movimento Verde-Amarelo, que, por volta de 1926, defendia um nacionalismo fechado às influências das vanguardas européias.

A frase exalta o papel dos bandeirantes na história do Estado e demonstra bem o espírito conservador do grupo, que contava com a participação de Menotti del Picchia, Cândido Mota Filho e Plínio Salgado, defendendo um ideário político de extrema direita, dando origem ao Grupo Anta e, posteriormente, no integralismo, vertente do nazifascismo no Brasil.

O Calendário da Tartaruga de 364 dias - Astronomia Ancestral Tupi

  Ilustração Tupi-Pop do Calendário na carapaça da tartaruga marinha por Kunumi Kûatiasara Os Tupinambá, Tupiniquim e outras etnias das Amér...